27 janeiro 2013

"REFLEXÃO DA SEMANA" -- 2013
2013/dezembro 30- 2014/janeiro 05/sem. 52
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Raridades (III, 112)
Tradução para português de Nuno Aragão

"É raro no mundo, monges, o surgimento de três tipos de pessoas. Quais são esses três?
-- O surgimento de um Tathagata, um Arahant completamente iluminado, é raro no mundo.
-- Alguém capaz de expor o Ensinamento e a Disciplina ensinados pelo Tathagata, é raro no mundo.
-- Alguém grato e agradecido é raro no mundo." 
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2013/dezembro 23-29/sem. 51
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Prazer, Desprazer e Libertação -- III (III, 102)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se não houvesse prazer no mundo, os seres não ganhariam apego pelo mundo. Mas, uma vez que existe prazer no mundo, os seres ganham apego a ele.
Se não houvesse desprazer no mundo, os seres não ganhariam aversão pelo mundo. Mas, uma vez que existe desprazer no mundo, os seres ganham aversão a ele.
Se não houvesse libertação do mundo, os seres não poderiam evadir-se do mundo.  Mas, uma vez que existe maneira de se libertarem do mundo, os seres podem evadir-se dele..."
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2013/dezembro 16-22/sem. 50
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Prazer, Desprazer e Libertação -- II (III, 101, 3)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Eu fui em busca de prazer no mundo, monges. Tudo o que existe de prazer no mundo, eu encontrei; e, até que ponto existe prazer no mundo, isso eu vi claramente através de sabedoria.

Eu fui em busca de desprazer no mundo, monges. Tudo o que existe de desprazer no mundo, eu encontrei; e, até que ponto existe desprazer no mundo, isso eu vi claramente através de sabedoria.

Eu fui em busca de libertação no mundo, monges. Isso de libertação do mundo, eu encontrei; e, até que ponto existe libertação do mundo, isso eu vi claramente através de sabedoria."
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2013/dezembro 09-15/sem. 49
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Prazer, Desprazer e Libertação -- I (III, 101, 1-2)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Anteriormente à minha iluminação, monges, quando eu era ainda um Bodhisatta, ocorreu-me este pensamento: `O que é o prazer do mundo, o que é o desprazer do mundo e o que é a libertação em relação ao mundo?´ Então pensei: `Aquilo que provoca felicidade e alegria no mundo, isso é o prazer do mundo; (o facto) de o mundo ser impermanente, carregado de dor e sujeito à mudança*, isso é o desprazer do mundo; e a remoção, o abandono, do anseio e da paixão pelo mundo, isso é a libertação em relação ao mundo.´

Até então, monges, eu não tinha compreendido completamente como essas coisas realmente são, o prazer do mundo como sendo efetiva satisfação, o seu desprazer como sendo efetiva insatisfação e libertação em relação ao mundo como sendo efetiva libertação**; até então, eu não tinha a certeza de que havia alcançado a incomparável e perfeita iluminação neste mundo, com seus devas, Maras e Brahmas, conjuntamente com a multidão de eremitas e Brâmanes, devas e homens.

Mas quando compreendi completamente (tudo isto), então soube, com toda a certeza, que tinha alcançado a incomparável e perfeita iluminação neste mundo... nessa altura surgiu em mim o entendimento: inabalável é a libertação da minha mente, este foi o meu último nascimento; não mais haverá um renascimento."
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*NT- I.e., sem substância/personalidade permanente ou constante.
**NT- Libertação, no sentido de independência (em relação a prazeres ou desprazeres)
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2013/dezembro 02-08/sem. 48
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- A Purificação da Mente II (III, 100, 11 e seguintes)
Tradução para português de Nuno Aragão 

"Monges, um monge dedicado ao mais alto treino mental deve, de vez em quando, dar atenção a três requesitos. Ele deve, de vez em quando, dar atenção à questão da concentração; de vez em quando, dar atenção à questão do esforço enérgico; e, de vez em quando, dar atenção à questão da equanimidade.

Se um monge dedicado ao mais alto treino mental der atenção exclusiva à questão da concentração, a sua mente poderá cair na indolência. Se der atenção exclusiva à questão do esforço enérgico, a sua mente poderá entrar em agitação. Se der atenção exclusiva à questão da equanimidade, a sua mente poderá não ficar bem concentrada na destruição dos grilhões*. Mas se, de vez em quando, ele der atenção a cada um destes três requisitos, a sua mente tornar-se-á flexível, maleável, lúcida e não difícil de manejar e, também, ficará bem concentrada na destruição dos grilhões.

Suponhamos que um ourives, ou o seu aprendiz, constroi um forno, acende um fogo nele, segura o ouro com um par de tenazes e o coloca no interior do forno. De vez em quando ventila-o, de vez em quando polvilha-o com água e de vez em quando examina-o cuidadosamente (1). Se o ourives ventilasse o ouro continuamente, ele poderia fundir-se pela ação do fogo. Se o polvilhasse com água continuamente, ele arrefeceria. E se somente olhasse para ele, o ouro não alcançaria a perfeita purificação. Mas se, de vez em quando, o ourives der atenção a cada uma destas funções, o ouro tornar-se-á flexível, maleável e luzidio e poderá ser facilmente moldável. Qualquer que seja o ornamento que o ourives pretenda fazer, seja um diadema, uns brincos, um colar ou uma pulseira, o ouro poderá então ser usado para esse propósito.

Do mesmo modo, há aqueles três requisitos a que um monge dedicado ao mais alto treino mental deve, de vez em quando, dar atenção, nomeadamente, as questões da concentração, do esforço enérgico e da equanimidade. Se ele der atenção regular a cada uma delas, então a sua mente tornar-se-á flexível, maleável, lúcida e não difícil de manejar e, também, ficará bem concentrada na destruição dos grilhões.

Então, ele poderá dirigir a sua mente para qualquer estado mental alcançável pelo mais alto conhecimento supranormal, e nesse preciso objeto ele atingirá a capacidade de alcançar a sua consecução pelo mais alto conhecimento supranormal, sempre que disponha das necessárias condições." 

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(1)- Isto refere-se ao terceiro requisito, a equanimidade, i.e., a observação ou examinação desprendida.  
*NT- Buda estabeleceu 10 negatividades (grilhões) cuja gradual erradicação corresponde ao alcançamento progressivo dos 4 Graus de Realização de Nirvana (Entrado-no-Fluxo, Um Retorno, Sem Retorno e Total Iluminação). Para mais completa elucidação, ver o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa
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2013/novembro 25-dezembro 01/sem. 47
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- A Purificação da Mente I (III, 100, 1--10)
Tradução para português de Nuno Aragão 

"Monges, há impurezas grosseiras no ouro, tais como, terra e areia, cascalho e saibro. Então, o ourives (ou o seu aprendiz) derrama o ouro numa gamela e depois lava-o, enxagua-o e limpa-o minuciosamente.

Após ele fazer isso, ainda permanecem impurezas médias no ouro, tais como, pequeno saibro e areia grosseira. Então, o ourives, ou o seu aprendiz, lava-o, enxagua-o e limpa-o de novo.

Depois disso, ainda permanecem minúsculas impurezas no ouro, tais como, areias pequenas e pó preto. O ourives (ou o seu aprendiz) repete a lavagem e, a partir daí, somente o pó do ouro permanece.

Então, ele verte o ouro para um cadinho e funde-o, funde-o totalmente. Mas ainda não o retira (do vaso) na medida em que a escória ainda não foi inteiramente removida, não estando ainda o ouro suficientemente flexível, maleável e luzidio; continua quebradiço, não se prestando facilmente à sua moldagem.

Porém, um tempo virá em que, após o ourives (ou o seu aprendiz) ter sucessivamente repetido a fundição, os defeitos foram inteiramente removidos. O ouro estará então bem flexível, maleável e luzidio, prestando-se facilmente à sua moldagem. 

Então, qualquer que seja o ornamento que o ourives pretenda fazer, seja um diadema, uns brincos, um colar ou uma pulseira, o ouro poderá então ser usado para esse propósito.

Do mesmo modo, monges, no caso de um monge dedicado ao mais alto treino mental, há nele impurezas grosseiras, nomeadamente conduta incorreta em ações, palavras e pensamentos. O monge abandona tal conduta, afasta-a, termina-a, e não permite que se repita.

Após a ter abandonado, há no entanto impurezas de um grau moderado que continuam coladas ao monge dedicado ao mais alto treino mental, nomeadamente, pensamentos sensuais, irados ou violentos. O monge abandona tais pensamentos, afasta-os, termina-os, e não permite que se repitam. 

Mas, após os ter abandonado, permanecem ainda algumas impurezas subtis que continuam coladas ao monge devotado ao mais alto treino mental, nomeadamente, pensamentos sobre os seus familiares, o seu país (natal) ou a sua reputação. 

Contudo, após os abandonar, ainda permanecem pensamentos sobre estados mentais mais elevados (experiências em meditação). Aquela concentração não está (ainda) calma e purificada; ainda não alcançou a completa tranquilidade, não atingiu a unificação mental; esta mantém-se unicamente através de um árduo esforço de eliminação (das impurezas).

Porém, um tempo virá em que a sua mente ganhará firmeza interior, assentará, e se tornará unificada e concentrada. Essa concentração será então calma e refinada; alcançou a completa tranquilidade, atingiu a unificação mental; esta já não se mantém através de um árduo esforço de eliminação (das impurezas).

Então, ele poderá dirigir a sua mente para qualquer estado mental alcançável pelo mais alto conhecimento supranormal, e nesse preciso objeto ele atingirá a capacidade de alcançar a sua consecução pelo mais alto conhecimento supranormal, sempre que disponha das necessárias condições (1)."

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(1)- Isto refere-se às condições preliminares requeridas para a consecução destas realizações; por ex., para os 5 poderes espirituais, o alcançamento do quarto Jhana.
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2013/novembro 18-24/sem. 46
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- O Renascimento (III, 76)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o venerável Ananda foi ver o Bem-Aventurado e falou assim:
-- "Falamos de `Renascimento´, Mestre. Como acontece o renascimento?"
-- "Ananda, se não houvesse carma (ação volitiva) amadurecendo na esfera de existência sensorial*, aconteceria algum renascimento sensorial?"
-- "Certamente que não, Mestre"
-- "Assim, Ananda, o carma é o terreno, a consciência é a raiz e o anseio é a humidade. Neste caso, em seres estorvados pela ignorância e agrilhoados pelo anseio, a consciência estabelece-se numa esfera baixa (1). Desse modo, haverá, no futuro, um devir, um renascimento numa esfera baixa.

Ananda, se não houvesse carma (ação volitiva) amadurecendo na esfera de existência material refinada*, aconteceria algum renascimento de matéria refinada?"
-- "Certamente que não, Mestre"
-- "Assim, Ananda, o carma é o terreno, a consciência é a raiz e o anseio é a humidade. Neste caso, em seres estorvados pela ignorância e agrilhoados pelo anseio, a consciência estabelece-se numa esfera intermédia (2). Desse modo, haverá, no futuro, um devir, um renascimento numa esfera intermédia.

Ananda, se não houvesse carma (ação volitiva) amadurecendo na esfera de existência imaterial*, aconteceria algum renascimento imaterial?"
-- "Certamente que não, Mestre"
-- "Assim, Ananda, o carma é o terreno, a consciência é a raiz e o anseio é a humidade. Neste caso, em seres estorvados pela ignorância e agrilhoados pelo anseio, a consciência estabelece-se numa esfera elevada (3). Desse modo, haverá, no futuro, um devir, um renascimento numa esfera elevada.
É assim, Ananda, que acontece o Renascimento."

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(1)- A esfera da existência sensorial
(2)- A esfera da existência de matéria refinada
(3)- A esfera da existência imaterial.
*NT- De acordo com Buda existem 31 planos (que podem ser agrupados em 3 esferas) de existência; por ordem crescente de evolução: esfera sensorial com 6 planos sensoriais (onde se incluem, por ex., os planos dos infernos, dos fantasmas, dos animais, dos seres humanos e o primeiro plano dos deuses); a esfera da matéria refinada com 21 planos de existência material refinada (planos dos devas, deuses); e a esfera imaterial com 4 planos de existência imaterial (planos dos deuses da mais elevada beatitude). 
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2013/novembro 11-17/sem. 45
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Velhice, Doença e Morte-II (III, 52)
Tradução para português de Nuno Aragão

(os três primeiros parágrafos são iguais aos do texto anterior)

"Este mundo, Brâmanes, está a arder com velhice, doença e morte. Mas, ainda que arda dessa forma, a quem dele parta, é proporcionado abrigo e segurança, uma ilha de refúgio, de acordo com o seu autodomínio em atos, palavras e pensamentos.

Quando uma casa arde, os bens dela retirados,
Serão de utilidade, mas não o que arde no interior.
Do mesmo modo, neste mundo em chamas com a velhice e morte,
Salva, com generosidade, o que possuis.
Os bens que ofereceres serão bem retirados e protegidos.

Após deixar este mundo, encontrará a felicidade
Quem é contido em corpo, fala e pensamento,
E, ao longo da vida, pratica boas ações meritórias.
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2013/novembro 04-10/sem. 44 
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Velhice, Doença e Morte-I (III, 51)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, dois frágeis e velhos Brâmanes*, idosos, de idade avançada, chegados aos finais da vida, com 120 anos de idade, foram visitar o Bem-Aventurado. Após o saudarem, sentaram-se a seu lado e falaram assim:
"Nós somos Brâmanes, mestre Gotama, frágeis e velhos... com 120 anos de idade. Mas nós nada fizemos que fosse nobre e meritório, algo que pudesse agora aliviar o nosso receio**. Possa o mestre Gotama alertar-nos, possa o mestre Gotama exortar-nos, de modo a que isso estimule o nosso bem-estar e felicidade por longo tempo!"

"Realmente, Brâmanes, estais frágeis e velhos...  com 120 anos de idade, e nada fizestes de nobre e meritório, algo que pudesse agora aliviar o vosso receio. 
Na verdade, Brâmanes, este mundo é trespassado por velhice, doença e morte. Mas, embora o mundo seja trespassado por velhice, doença e morte, o autodomínio em ações, o autodomínio em palavras e o autodomínio em pensamentos fornecerão, àquele que parte (deste mundo), abrigo e segurança, uma ilha de refúgio e socorro".

A vossa vida é-vos levada, breve é a sua duração.
Para aquele que é atingido pela velhice, não há segurança que possa encontrar.
Mantendo em mente o perigo que a morte constitui,
Desenvolva ele as ações boas que trazem a felicidade.

Aquele que é comedido em corpo, palavra e pensamento,
Chegada a hora de partir, a felicidade estará consigo
Se, durante a vida, tiver feito boas e meritórias ações.

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*NT- O Brâmane é um membro da casta superior do Hinduismo, a casta dos homens religiosos.
**NT- Receio do `julgamento final´.
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2013/outubro 28-novembro 03/sem. 43
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- O Condicionado e o Não-Condicionado (III, 47)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há três características da (existência) condicionada. Quais três? É observável o seu surgimento, é observável o seu desaparecimento, e é observável a sua mudança enquanto existe. Estas são as três características da (existência) condicionada.
Monges, há três características do Não-Condicionado. Quais três? Não é observável qualquer surgimento seu, não é observável qualquer desaparecimento seu, e não é observável qualquer mudança sua enquanto persiste. Estas são as três características do Não-Condicionado."
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2013/outubro 21-27/sem. 42
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Causa de Humilhação (III, 18)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se ascetas mendicantes e sem lar de outras crenças vos perguntassem: `Diga-me amigo, é em troca de renascimento num plano divino* que segue a vida santa e casta  (brahmacariya) sob orientação do eremita Gotama?´ Se fossem assim questionados, monges, não se sentiriam magoados, humilhados e menosprezados?"
-- "Certamente, senhor."
-- "Pelos vistos, monges, sentem-se magoados, humilhados e menosprezados ante a ideia de [buscarem egoisticamente] a duração de uma vida divina, a beleza divina, o êxtase divino, o estado divino de suprema glória. Então, quanto mais magoados, humilhados e menosprezados não se sentirão, no caso de conduta errada em ações, palavras ou pensamentos!"
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*NT- i.e., visando oportunisticamente os privilégios do renascimento num plano divino.
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2013/outubro 14-20/sem. 41
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- O Tonto e o Sabedor (III, 2) 
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, a ação revela o tonto, a ação revela o sabedor. A luz da sabedoria mostra-se no comportamento.
Por três coisas pode o tonto ser reconhecido: pela sua má-conduta em ações, palavras e pensamentos.
Por três coisas pode o sabedor ser reconhecido: pela sua boa-conduta em ações, palavras e pensamentos."
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2013/outubro 07-13/sem. 40
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dois -- Os Pais (ll, iv, 2) 
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, nunca se pode compensar devidamente duas pessoas, eu vos digo. Quais duas? A mãe e o pai.
Mesmo se fosse o caso de carregar num ombro a mãe e no outro o pai, e nessas condições vivesse cem anos, alcançasse a idade de cem anos; tendo, além disso, de cuidar deles untando-os com unguentos, fazendo-lhes massagens, dando-lhes banho e esfregando-lhes as pernas e mesmo limpando aí os seus excrementos; mesmo agindo assim, o filho não faria o suficiente pelos seus pais, não os compensaria devidamente. Mesmo que conseguisse estabelecer os seus pais como lordes supremos e governantes deste tão valioso mundo dos sete tesouros*, ele não faria o suficiente pelos seus pais, não os compensaria devidamente.

Qual é a razão disso? Os pais fazem muito pelos seus filhos, monges, educam-nos, alimentam-nos, são os seus guias através do mundo.

Mas aquele que, monges, estimula os seus pais descrentes, colocando-os e fundindo-os na fé; estimula os seus pais imorais, colocando-os e fundindo-os na moralidade; estimula os seus pais avarentos, colocando-os e fundindo-os na generosidade; estimula os seus pais ignorantes colocando-os e fundindo-os na sabedoria, uma tal pessoa, monges, faz o suficiente pelos seus pais, compensa -- e mais do que compensa -- os seus pais por aquilo que eles fizeram."

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*NT- Diversas dinastias na antiga China designaram estes tesouros como sendo ouro, prata, lapis lazuli, mais quatro pedras preciosas que foram variando consoante a dinastia.    
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2013/setembro 30-outubro 06/sem. 39
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dois -- Incessante Esforço (II, 1, 5) 
Tradução para português de Nuno Aragão

"Duas coisas, monges, eu acabei por conhecer bem (1): não ficar satisfeito com os bons estados (mentais, já alcançados) (2) e manter incessante labuta (pelo desiderato). Incessantemente, na verdade, eu me esforcei (com absoluta resolução): `Possam pele, tendões e ossos sobrar, possam carne e sangue secarem no corpo que, apesar disso, a energia não cessará até que seja alcançado aquilo que pode ser conquistado pela força destemida, pela energia destemida, pelo esforço destemido!´

Por meio de vigilante e lúcido (esforço) eu conquistei a Iluminação; através do esforço conquistei eu a inultrapassável proteção da armadilha (de samsara).

Se também vós, monges, se esforçarem incessantemente (com absoluta resolução) assim: `Possam pele, tendões e ossos sobrar, possam carne e sangue secarem no corpo que, apesar disso, a energia não cessará até que seja alcançado aquilo que pode ser conquistado pela força destemida, pela energia destemida, pelo esforço destemido!´ -- então vós também, monges, em pouco tempo enxergarão, aqui e agora, através do vosso próprio conhecimento direto, esse inigualável desiderato da vida santa, pelo qual filhos de boas famílias justamente seguem em frente, do lar para a vida sem lar e, uma vez lá mergulhados, lá se mantêm.

Por isso, monges, deveis treinar-vos assim: `Incessantemente eu me esforçarei (com absoluta resolução): `Possam pele, tendões e ossos sobrar, possam carne e sangue secarem no corpo que, apesar disso, a energia não cessará até que seja alcançado aquilo que pode ser conquistado pela força destemida, pela energia destemida, pelo esforço destemido!´

Deste modo vos deveis treinar."
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(1)- Aqui Buda refere-se ao tempo em que era apenas um Bodhisatta, em demanda pela Iluminação.
(2)- Coment.. por ex., com as Absorções (Jhanas) ou a luz interna (que indica um certo patamar da meditação da Visão Interior).
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2013/setembro 23-29/sem. 38
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dois -- Tranquilidade e Visão Interior
Tradução para português de Nuno Aragão

"Duas coisas, monges, compartilham do Supremo Conhecimento(1). Quais duas? Tranquilidade e Visão Interior(2).

Se a Tranquilidade for desenvolvida, que benefício traz isso? O da mente se tornar desenvolvida. E qual o benefício de uma mente desenvolvida? O de toda a luxúria ser abandonada(3).

Se a Visão Interior for desenvolvida, que benefício traz isso? O da sabedoria se tornar desenvolvida. E qual o benefício de a sabedoria se tornar desenvolvida? O de toda a ignorância ser abandonada.

Uma mente manchada por luxúria não é livre; e sabedoria manchada por ignorância não pode ser desenvolvida. Deste modo, monges, pelo fenecimento da luxúria tem lugar a libertação da mente; e pelo fenecimento da ignorância tem lugar a libertação pela sabedoria."
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(1)- vijja bhagiya ou seja, eles são constituintes do Supremo Conhecimento (vijja). Isto pode referir-se: a) ao Supremo Conhecimento Triplo(te-vijja), muitas vezes aludido nos Discursos, que consiste em a.1) Lembrança de anteriores Renascimentos, a.2) Olho Divino, e a.3) Extinção dos Grilhões, ou pode referir-se: b) à Óctupla Divisão usada nos Comentários, i.e., b.1) Conhecimento por Visão Direta (vipassana-nana), b.2) Poder de criar mentalmente um corpo (manomaya iddhi) e b.3-8) Os seis Conhecimentos Diretos (abhinna).
(2)- Tranquilidade (samatha) que culmina nas Absorções meditativas (jhanas), estados supremamente tranquilos e pacíficos; Visão Interior que é, de acordo com os Comentários, "conhecimento que compreende as inerentes transitoriedade, insatisfatoriedade e insubstancialidade das carma-formações.
(3)- Comentário: "Mente que se tornou desenvolvida, i.e., que se expandiu e se tornou mais abrangente ao longo da Senda da consciência. A luxúria é abandonada porque se opõe a (é incompatível com) a Senda da consciência e, desse modo, a Senda é, por sua vez, incompatível com a luxúria. Num momento de luxúria não existe Senda da consciência; e, num momento da Senda não existe luxúria. No momento em que surge, a luxúria obstrui o surgimento do momento de Senda, cortando cerce as suas bases; ao invés, quando a Senda surge, ela corta cerce e erradica a luxúria". Contudo, esta última afirmação aplica-se apenas à quarta Senda, a Senda da Santidade (arahatta-magga), não às três anteriores [no conjunto das quatro Sendas ou quatro Graus de Realização de Nirvana].
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2013/setembro 16-22/sem. 37
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dois -- O Potencial Humano (II, ii, 9)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, abandonem o que é negativo! O que é negativo pode ser abandonado, monges! Se não fosse possível abandonar o que é negativo, eu não vos pediria que o fizessem.  Mas, uma vez que isso pode ser feito, eu digo-vos: `Abandonem o que é negativo!´.
Se o abandono do que é negativo comportasse lesão ou sofrimento, eu não vos pediria que o fizessem.  Mas, uma vez que o abandono do que é negativo comporta prosperidade e satisfação, eu digo-vos: `Abandonem o que é negativo!´.
Monges, cultivem o que é edificante! O que é edificante pode ser cultivado, monges! Se não fosse possível cultivar o que é edificante, eu não vos pediria que o fizessem. Mas, uma vez que isso pode ser feito, eu digo-vos: `Cultivem o que é edificante!´.
Se a cultivação do que é edificante comportasse lesão ou sofrimento, eu não vos pediria que o fizessem. Mas, uma vez que a cultivação do que é edificante comporta prosperidade e satisfação, eu digo-vos: `Cultivem o que é edificante!´."
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2013/setembro 09-15/sem. 36
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dois -- 2 Tipos de Felicidade (II, vii: seleção)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há dois tipos de felicidade, monges.
A felicidade da vida do lar e a felicidade da vida de monge. Mas a felicidade da vida de monge é a mais elevada das duas.
A felicidade dos sentidos e a felicidade da renúncia. Mas a felicidade da renúncia é a mais elevada das duas.
A felicidade maculada (1) e a felicidade imaculada.  Mas a felicidade imaculada é a mais elevada das duas.
Felicidade carnal e não-carnal... felicidade nobre e ignóbil... felicidade física e mental...
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(1)- aqui Buda refere-se ao tempo em que era ainda umBodhisatta trabalhando para a Iluminação.
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2013/setembro 02-08/sem. 35
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- O Impossível (I, xv, 1-3)
Tradução para português de Nuno Aragão

"É impossível, monges, e não pode acontecer, que uma pessoa possuidora da correta compreensão (1) veja qualquer carma-formação como permanente. Contudo, é possível que uma pessoa não instruída veja as carma- formações como permanentes.
É impossível, monges, e não pode acontecer, que uma pessoa possuidora da correta compreensão veja qualquer carma-formação como (algo que confere) felicidade.
É impossível, monges, e não pode acontecer, que uma pessoa possuidora da correta compreensão veja alguma coisa que seja (2) como possuindo uma substância permanente *. Contudo, é possível que uma pessoa não-instruída veja alguma(s) coisa(s) como possuindo substância permanente.
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(1)- isto refere-se ao "Entrado-no-Fluxo" (sotapanna).
(2)- isto inclui Nirvana, o não-condicionado.
*NT- como uma personalidade ou uma alma permanentes.
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2013/agosto 26-setembro 01/sem. 34
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  1

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- Uma Pessoa (I, xiii: seleção)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há uma pessoa cujo surgimento no mundo é para o bem-estar de muitos, para a felicidade de muitos, que surge por compaixão pelo mundo, para o benefício, bem-estar e felicidade de deuses e homens. Quem é essa `uma pessoa´? É um Tathagata, um Arahant, um Perfeitamente Iluminado. É isso o que essa uma pessoa é. ...
Monges, há uma pessoa que surge no mundo que é única, sem um par, sem homólogo, incomparável, inigualável, inatingível, sem rival, o melhor entre os humanos (1). Quem é uma tal pessoa? É um Tathagata, um Arahant, um Perfeitamente Iluminado. É isso o que essa uma pessoa é. ...
Monges, a manifestação de uma tal pessoa é uma manifestação de grandiosa compreensão, de grandiosa luz, de grandiosa radiância; é a manifestação das seis coisas insuperáveis (2); é a penetração dos quatro Conhecimentos Analíticos; é a penetração dos vários elementos, da diversidade dos elementos (3); é a consecução do fruto de ´conhecimento e libertação´, é a consecução dos frutos de `Entrado-no-Fluxo´, `Um-Retorno´, `Sem-Retorno´ e `Estado de Arahant´. De que `uma pessoa´ (é isso manifestação)? De um Tathagata, um Arahant, um Perfeitamente Iluminado. Isto, monges, é essa `uma pessoa´.
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(1)- Lit., "seres bípedes".
(2)- As seis coisas insuperáveis são: a imagem de um Buda, o som das suas palavras instrutivas, o ganho de confiança nele, o treino triplo (em virtude, concentração e sabedoria) por ele proclamado, o serviço a ele prestado, a recordação do Buda.
(3)- Por `elementos´ (dhatu) entendem-se aqui, em particular, os 18 elementos de cognição sensorial, nomeadamente, os 6 órgãos sensoriais, os 6 objetos sensoriais e os 6 correspondentes tipos de consciência (incluindo a mental).
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2013/agosto 19-25/sem. 33
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  I

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- Mente, a Fonte do Edificante (Bem) e do Pernicioso (Mal)
Tradução para português de Nuno Aragão

(A) (I, vi, 6. 8)
"Monges, quaisquer estados mentais que sejam perniciosos, que sejam parte do pernicioso, que estejam do lado do pernicioso -- todos eles têm a mente como precursora. Primeiro surge a mente (momento de consciência) negativa, a qual é seguida dos estados mentais perniciosos.

Monges, não conheço outra coisa pela qual e com a mesma amplitude, sejam produzidos estados mentais perniciosos não antes surgidos, e sejam esmorecidos, por negligência (1), estados mentais edificantes anteriormente surgidos. Naquele, que é negligente, monges, os estados mentais perniciosos ainda não surgidos irão surgir, e os estados mentais edificantes, já existentes, irão definhar."

(1)- No sentido de não estar presente a atenção vigilante
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(B) (I, vi, 7.9) 
"Monges, quaisquer estados mentais que sejam edificantes, que sejam parte do edificante, que estejam do lado do edificante -- todos eles têm a mente como precursora. Primeiro surge a mente (momento de consciência) positiva, a qual é seguida dos estados mentais edificantes.

Monges, não conheço outra coisa pela qual e com a mesma amplitude, sejam produzidos estados mentais edificantes não antes surgidos, e sejam definhados até à exaustão -- por meio da pura consciencialização (sati) (2) -- os estados mentais perniciosos anteriormente surgidos. Naquele que é vigilante, monges, os estados mentais edificantes ainda não surgidos irão surgir, e os estados mentais perniciosos, já existentes, irão definhar."

(2)- trata-se da técnica da aplicação da atenção vigilante usada na meditação Vipassana, a meditação desenhada pelo próprio Buda, que consiste na  simples constatação (desprendida e não interventiva) da presença/manifestação, no momento, dos estados mentais perniciosos.
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2013/agosto 12-18/sem. 32
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  I

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- Amor Universal
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se, mesmo que simplesmente pelo tempo de um estalar de dedos, um monge produz um pensamento de amor universal, o nutre e acalenta, um tal ser é chamado (justamente) de monge. Ele não medita em vão, atua de acordo com a doutrina do Mestre, respeita os seus conselhos e é merecedor da comida que lhe é ofertada no seu ato de mendicância".
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2013/agosto 05-11/sem. 31
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  I

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- A Mente-II
Tradução para português de Nuno Aragão

"Não conheço outra coisa, monges, que mude tão rapidamente quanto a mente; sendo assim, não é fácil ilustrar, dar um exemplo de, quão rapidamente a mente muda." (1)    (I, v, 8)

"Luminosa, monges, é a mente; e é turvada por acidentais negatividades." (2)

"Luminosa, monges, é a mente; e é independente das acidentais negatividades."     (I, v, 9-10)

(1)- Coment.: a mente (i.e., um momento de consciência) surge rapidamente e extingue-se rapidamente
(2)- `Luminosa´: Coment.: brilhante, pura. `A mente´ (citta) refere-se aqui, de acordo com os Coment., à mente sub-consciente (bhavanga-citta) ou continuum mental. A expressão `mente luminosa´ não significa qualquer `mente-essência eterna e pura´, o que é evidenciado no texto, no qual a mente é apresentada como algo extremamente fugaz e transitório. As negatividades acidentais são o desejo (ardente), a aversão e a ilusão.
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2013/julho 29-agosto 04/sem. 30
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- An Anthology  I

Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Uns -- A Mente-I (I,iii,1-10; seleção)
Tradução para português de Nuno Aragão

Não conheço outra coisa tão intratável, monges, como uma mente não evoluída (1); uma mente não evoluída é, na verdade, algo intratável.
Não conheço outra coisa tão maleável, monges, como uma mente evoluída; uma mente evoluída é, na verdade, algo maleável.
Não conheço outra coisa, monges, que produza tanto sofrimento como uma mente não evoluída nem cultivada; uma mente não evoluída nem cultivada produz, na verdade, muito sofrimento.
Não conheço outra coisa, monges, que produza tanta felicidade como uma mente evoluída e cultivada; uma mente evoluída e cultivada produz, na verdade, muita felicidade. (I,iii,1-10; seleção)
Não conheço outra coisa, monges, que lese tanto como uma mente não disciplinada, sem comedimento, desprotegida e sem autocontrolo. Uma tal mente, na verdade, provoca muita lesão.
Não conheço outra coisa, monges, que traga tanto benefício como uma mente disciplinada, com comedimento, protegida e com autocontrolo. Uma tal mente, na verdade, traz grande benefício. (I, iv, 1-10; seleção)

(1)- Ou seja, uma mente não desenvolvida, sem progresso na cultivação mental (bhavana)
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2013/julho 22-28/sem. 29
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (LII.9)
  Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, estavam a residir em Vesali, no Bosque de Ambapali, os veneráveis Sariputta e Anurudha. A dada altura, o ven. Sariputta, saindo de um período noturno de recolhimento, aproximou-se do ven. Anurudha... e disse:
-- "Muito transparentes e magnificentes são as suas faculdades, amigo Anurudha. Perfeitamente puros e cristalinos são os seus dons naturais. Em que esfera mental se estabelece maioritariamente o ven. Anurudha agora?"
-- "Agora, amigo, mantenho-me com a mente maioritariamente focada nas quatro bases da atenção vigilante. Quais quatro? Eu pratico, em permanência, a contemplação-do-corpo no corpo... sensações... estados mentais... contemplação-dos-objetos mentais nos objetos mentais, dedicado, com compreensão clara, atento, e tendo afastado a cobiça e a lamentação em relação ao mundo. Agora, amigo, eu vivo basicamente e em contínuo com a mente bem estabelecida nestas quatro bases da atenção vigilante.
Qualquer monge, amigo, que seja um Arahant*, eliminou total e definitivamente os grilhões [negatividades e impurezas], alcançou a completa consecução, fez o que havia a fazer, desfez o peso da carga, atingiu o desiderato, eliminou completamente o grilhão do devir [alimentação do processo de existência], está libertado através do perfeito entendimento, e vive basicamente e em contínuo com a mente bem estabelecida nas quatro bases da atenção vigilante."
-- É, na verdade, um ganho para nós, amigo. É, na verdade, um grande ganho para nós, amigo, termos ouvido o venerável Anurudha, em pessoa, proferir esta impressiva declaração."(1)

(1)- Sariputta chama-a `impressiva declaração´ (literalmente,`afirmação bombástica ao jeito de um touro´ ,asabhi-vaca) porque ela constitui a solene declaração de Anurudha de ter alcançado o estado de "Totalmente Iluminado".
*NT- Arahant ou Totalmente Iluminado.
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2013/julho 15-21/sem. 28
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (XLVIII.9)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há as cinco faculdades. Que cinco? As faculdades da fé, da energia, da vigilância, da concentração e da sabedoria.
Então, monges, o que é a faculdade da fé? Ele tem fé [convicção total] na Iluminação do Tathagata* do seguinte modo: `O Mestre é dessa natureza uma vez que é um Arahant, Totalmente Iluminado, perfeito na compreensão e na conduta, sublime, conhecedor dos mundos, inultrapassável líder de homens a ser cultivados, o Professor de deuses e homens, iluminado, o Mestre.´ A isto, monges, se chama a faculdade da fé.
E então, monges, o que é a faculdade de energia? No que respeita a isso, monges, o Nobre Discípulo vive com a sua energia estimulada por se ter livrado de estados demeritórios e ter aperfeiçoado os estados meritórios, esforçado e enérgico, sem abrandar o esforço em relação aos estados meritórios. A isto, monges, se chama a faculdade da energia.
E então, monges, o que é a faculdade da vigilância? No que respeita a isso, monges, o Nobre Discípulo é atento, na posse de excelentes atenção vigilante e prudência, recordando o que foi dito e feito há muito (1). A isto, monges, se chama a faculdade da vigilância.
E então, monges, o que é a faculdade da concentração? No que respeita a isso, monges, o Nobre Discípulo, afastando (o apego a) o objeto do pensamento, obtém concentração, obtém unificação [focalização] da mente. A isto, monges, se chama a faculdade da concentração.
E então, monges, o que é a faculdade da sabedoria? No que respeita a isso, monges, o Nobre Discípulo é sabedor, possui a sabedoria (que vê) o nascimento e o fenecimento (de fenómenos), nobre, penetrante, que conduz ao fim irreversível do sofrimento. A isto, monges, se chama a faculdade da sabedoria."

(1)- Para além do sentido de estar consciente do presente, aqui e agora, a atenção vigilante está também relacionada com a memorização.
NT*- Buda usava a palavra Tathagata para se referir aos Budas.
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2013/julho 08-14/sem. 27
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (XLVII.37)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Estas são, monges, as quatro bases* da atenção vigilante...
Enquanto se dedica à contemplação-do-corpo no corpo, qualquer desejo que tenha lugar relativo ao corpo é abandonado. Ao se abandonar o desejo, a imortalidade é compreendida.
Enquanto se dedica à contemplação-das-sensações nas sensações... contemplação-da-mente na mente... contemplação-dos-objetos mentais nos objetos mentais, qualquer desejo que tenha lugar relativo aos objetos mentais é abandonado. Ao se abandonar o desejo, a imortalidade é compreendida."

NT*- as quatro bases, ou seja, os quatro campos de aplicação
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2013/julho 01-07/sem. 26
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (XLVII.35)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, um monge deve estar vigilante e compreender claramente. Esta é a nossa instrução para vós.

E o que significa um monge ser vigilante? No que respeita a isso, monges, um monge pratica em permanência a contemplação-do-corpo no corpo... a contemplação-das-sensações nas sensações... a contemplação-dos-estados mentais nos estados mentais... a contemplação-dos-objetos mentais nos objetos mentais, empenhado, vigilante e compreendendo claramente, tendo afastado a cobiça e a lamentação em relação ao mundo. É desta forma, monges, que um monge é vigilante.

E o que significa um monge compreender claramente? No que respeita a isso, monges, as sensações são notadas pelo monge à medida que surgem, enquanto se mantêm e quando terminam. Os pensamentos são notados pelo monge à medida que surgem, enquanto se mantêm e quando terminam. As perceções são notadas pelo monge à medida que surgem, enquanto se mantêm e quando terminam. É desta forma, monges, que um monge compreende claramente.

Um monge deve estar vigilante e compreender claramente. Esta é a nossa instrução para vós."
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2013/junho 24-30/sem. 25
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (XLV.8)
  Tradução para português de Nuno Aragão

Savathi foi o local onde Buda fez este discurso.
“Vou fazer a análise e dar-vos a explicação do Caminho do Meio 1Prestem boa atenção, vou começar.”
“Sim, Mestre”, responderam os monges.
O Bem-Aventurado então disse:
-- “O que é, monges, o caminho do Meio? É a correta compreensão, a correta postura mental, o correto modo de falar, a correta ação, o correto modo de vida, o correto esforço, a correta atenção e a correta concentração.

E o que se entende , monges, por `correta compreensão´? É a compreensão da existência da insatisfação, da origem da insatisfação, da cessação da insatisfação e do caminho a ser seguido para a cessação da insatisfação. Isto, monges, é a correta compreensão.

E o que se entende , monges, por `correta postura mental´? É a inclinação para a renúncia, para a bem-querença e para a beneficência. Isto, monges, é a correta postura mental.

E o que se entende , monges, por `correto modo de falar´? É a abstenção de linguagem falsa, de linguagem caluniosa, de linguagem ofensiva e da fútil tagarelice. Isto, monges, é o correto modo de falar.

E o que se entende , monges, por `correta ação´? É a abstenção de tirar a vida, de tomar o que não foi dado e de conduta sexual ilícita. Isto, monges, é a correta ação.

E o que se entende , monges, por `correto modo de vida´? É a adoção de um modo de ganhar a vida adquirido por meios legais, de modo pacífico, sem coerção ou violência, sem engodo ou fraude, e sem envolver danos para outros nomeadamente: negócio em armas, em seres humanos (escravidão, prostituição), em matança de animais e comércio de carnes, em venenos e intoxicantes, bem como, por outro lado, a atitude de ajudar os outros a adotarem também um modo de vida correto. Isto, monges, é o correto modo de vida.

E o que se entende , monges, por `correto esforço´? É a determinação de (1)prevenir os estados mentais perniciosos, (2)de abandonar os estados mentais perniciosos já existentes no interior da pessoa, (3)de estimular o surgimento de estados mentais benéficos e edificantes, e de (4)desenvolver e apurar até à total consecução os estados mentais benéficos e edificantes já presentes na pessoa. Isto, monges, é o correto esforço.

E o que se entende , monges, por `correta atenção´? É a prática da contemplação nas quatro bases da atenção vigilante , designadamente (1) corpo, (2)sensações, (3)estados mentais e (4)objetos mentais 3. Isto, monges, é a correta atenção.

E o que se entende , monges, por `correta concentração´? É a prática da unifocalização, afastada do bulício e de pensamentos dissociativos, em que o monge 4 pode alcançar, sucessivamente, o primeiro jhana (absorção meditativa) onde está presente o fluxo discursivo interno não volitivo, e é marcado por desprendimento, entusiasmo e alegria. Depois, com o aquietar do fator de discurso interno e pelo incremento da serenidade interior e da unifocalização da mente, o monge entra no segundo Jhana, o qual é marcado por entusiasmo e alegria. Após o desaparecimento do entusiasmo, o monge instala-se na equanimidade onde, lúcido e possuído da clara compreensão, experiencia o êxtase e, assim, instala-se no terceiro jhana; como dizem as pessoas eméritas: “Feliz vive aquele que é equânime e lúcido” . Com o desaparecimento do prazer/desprazer e com o prévio desaparecimento da alegria/mágoa, instala-se no quarto jhana, o qual consiste em "nem-prazer-nem-desprazer" e em pureza de atenção devida à equanimidade. Isto, monges, é a correta concentração.”

Notas da ABT
1-Também chamado Óctuplo Nobre Caminho.
2-Conforme o discurso de Buda denominado “Satipatthana Sutta”.
3-Também designados por Fenómenos Mentais.
4- ou praticante.
5- Recomenda-se as leituras explicativas sobre este tema contidas nos livros seguintes:
-- “O Ensinamento de Buda”, de Walpola Rahula, Editorial Estampa.
-- “O Caminho do Meio – a prática budista”, de Bhikkhu Bodhi, Pergaminho.
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2013/junho 17-23/sem. 24
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 5-- Secção Grande (XLV.2) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

Assim eu ouvi:
Certa vez, estava o Bem-Aventurado residindo entre os Sakyas, na cidade comercial de Sakkara.
Então o venerável Ananda aproximou-se de Buda, prostrou-se perante ele, sentou-se a seu lado e dirigiu-se-lhe assim:
-- "Metade da vida santa, Mestre, é amizade com o bem, empatia com o bem, associação com o bem."
-- "Não digas isso, Ananda, Não digas isso, Ananda. Amizade, empatia e associação com o bem é a totalidade da vida santa. De um monge, Ananda, que seja amigo, empático e associado do bem, espera-se que cultive e pratique com seriedade o Caminho do Meio [Caminho Nobre]. E como é que um monge, Ananda,... cultiva e pratica com seriedade o caminho do meio? Em relação a isso, Ananda, o monge cultiva a compreensão correta, centrada no desapego, centrada no desprendimento, centrada na cessação, a qual desemboca no abandono (de todo o apego). Ele cultiva a postura mental correta... modo de falar... ação... modo de vida... esforço... atenção... concentração correta, centrada no desapego, centrada no desprendimento, centrada na cessação, a qual desemboca no abandono.
É desta forma, Ananda, que um monge que seja amigo, empático e associado do bem, cultiva e pratica com seriedade o Caminho do Meio.
É desta forma, Ananda, deve ser entendido que a totalidade da vida santa é amizade, empatia e associação com o bem.
Aceitando-me como bom amigo, seres sujeitos ao renascimento são libertados do renascimento, seres sujeitos à velhice são libertados da velhice, seres sujeitos à morte são libertados da morte, seres sujeitos a tristeza, lamentação, sofrimento, aflição e desespero são libertados disso.
Deste modo, Ananda, deve ser entendido que a totalidade da vida santa é amizade, empatia e associação com o bem."
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2013/junho 10-16/sem. 23
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXVIII.1) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o venerável Sariputta estava residindo no concelho de Magadha, na vila de Nalaka. Então, o asceta mendicante Jambukhadaka aproximou-se do venerável e trocou saudações com ele. Depois sentou-se ao seu lado e disse-lhe:
--  Nirvana, Nirvana! é muitas vezes referido, amigo Sariputta. Mas, meu amigo, o que é Nirvana?
-- O fim da cobiça, da aversão e da delusão, amigo, é chamado de Nirvana.
-- Mas há algum caminho, alguma linha de conduta, amigo, para se alcançar Nirvana?
-- Há um caminho, uma linha de conduta, amigo, para se alcançar Nirvana.
-- E qual é o caminho, qual é a linha de conduta...?
-- É simplesmente o Caminho Nobre* ... ou seja, compreensão correta, postura mental correta, modo de falar correto, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta... É um bom caminho, amigo, uma boa linha de conduta para se alcançar Nirvana, e é razão suficiente para se ser diligente!

NT- Também designado por Caminho do Meio ou por Óctuplo Nobre Caminho.
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2013/junho 03-09/sem. 22
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXV.135) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"É uma grande vantagem, monges, é uma grande vantagem vocês terem tido a oportunidade de viver a vida santa.
Eu vi, monges, os infernos, chamados "seis bases sensoriais" ou "seis bases do contacto". Aí, quaisquer objetos visíveis que uma pessoa veja com os olhos, vê apenas o não aprazível, nunca o aprazível, vê apenas o desagradável, nunca o agradável, vê apenas o não atraente, nunca o atraente. Qualquer som que uma pessoa ouça com os ouvidos... qualquer odor que uma pessoa cheire com o nariz... qualquer sabor que uma pessoa saboreie com a língua... qualquer objeto tangível que uma pessoa toque com o corpo... qualquer objeto mental que uma pessoa aperceba com a mente, apercebe apenas o não aprazível, nunca o aprazível, apercebe apenas o desagradável, nunca o agradável, apercebe apenas o não atraente, nunca o atraente. É uma grande vantagem, monges, é uma grande vantagem vocês terem tido a oportunidade de viver a vida santa.
Eu vi, monges, os céus, chamados seis bases sensoriais ou seis bases do contacto. Aí, quaisquer objetos visíveis que uma pessoa veja com os olhos, vê apenas o aprazível, nunca o não aprazível, vê apenas o agradável, nunca o desagradável, vê apenas o atraente, nunca o não atraente. Qualquer som que uma pessoa ouça com os ouvidos... qualquer objeto mental que uma pessoa aperceba com a mente, apercebe apenas o aprazível, nunca o não aprazível, apercebe apenas o agradável, nunca o não agradável, apercebe apenas o atraente, nunca o não atraente.
É uma grande vantagem, monges, é uma grande vantagem vocês terem tido a oportunidade de viver a vida santa." (1)

(1)- Neste discurso o céu e o inferno são apresentados como dois extremos da experiência, parcial e incompleta. Somente como ser humano, quando tanto prazer como dor são conhecidos, que a experiência pode ser vista com objetividade e de forma abrangente. Desse modo, só num nascimento humano pode a vida santa ou religiosa (brahmachariya) ser vivida e constitui uma grande "oportunidade" para progresso espiritual.
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2013/maio 27-junho 02/sem. 22
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXV.88) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

Um dia, o venerável Punna aproximou-se do Mestre... sentou-se a seu lado... e disse:
-- "Seria bom, Mestre, se me ensinasse o Dhamma(Ensinamento) resumidamente. Depois de ouvir o Dhamma dito pelo Mestre, poderei viver só, retirado, diligente, entusiasmado e resoluto."
-- "Punna, há objetos visíveis reconhecíveis pelo olho... sons reconhecíveis pelo ouvido... objetos mentais reconhecíveis pela mente, satisfatórios, agradáveis, atraentes, cativantes, desejáveis, fazendo despontar paixões. Se um monge se delicia neles, lhes dá as boas vindas, se deixa permear por eles... o prazer (neles) surge. E, digo eu, Punna, a origem do prazer é (também) a origem do sofrimento.
   ... porém, se o monge não se delicia neles, não lhes dá as boas vindas, não se deixa permear por eles... o prazer cessa. E, digo eu, a cessação do prazer é (também) a cessação do sofrimento.
Agora, Punna, que foste ensinado por mim com esta breve instrução, em que país vais viver?"
-- Há um país, Mestre, chamado Sunaparanta, é lá que eu vou viver."
-- Os homens de Sunaranta são violentos e cruéis, Punna. Se eles te insultarem e ofenderem, o que vais tu sentir?"
-- Mestre, no caso de os homens de Sunaparanta me insultarem e ofenderem, eu sentiria assim: Bons são estes homens de Sunaparanta, muito bons são estes homens de Sunaparanta, na medida em que não me atacaram com as mãos. Seria assim nesse caso, Mestre, o que eu sentiria. Seria assim nesse caso, Ser Feliz, o que eu sentiria."
-- "Mas, se os homens de Sunaparanta te atacarem com as mãos, o que vais tu sentir?"
-- " ... eu sentiria: Bons são estes homens de Sunaparanta, muito bons são estes homens de Sunaparanta, na medida em que não me atacaram com bolas de terra..."
--  "Mas, se os homens de Sunaparanta te atacarem com bolas de terra, o que vais tu sentir?"
-- " ... eu sentiria: Bons são estes homens de Sunaparanta, muito bons são estes homens de Sunaparanta, na medida em que não me atacaram com paus... "
--  "Mas, se os homens de Sunaparanta te atacarem com paus, o que vais tu sentir?"
-- " ... eu sentiria: Bons são estes homens de Sunaparanta, muito bons são estes homens de Sunaparanta, na medida em que não me atacaram com uma arma..."
--  "Mas, se os homens de Sunaparanta te tirarem a vida, o que vais tu sentir?"
-- " ... eu sentiria: Há discípulos do Mestre que, ao serem vexados, humilhados e desprezados no que respeita ao corpo e à vida, procuram uma arma (para cometer suicídio), mas eu alcanço a morte por meio de uma arma impensada. Seria assim nesse caso, Mestre, o que eu sentiria. Seria assim nesse caso, Ser Feliz, o que eu sentiria."
-- Está bem, Punna, está bem. Sendo dotado desse autodomínio e dessa serenidade, poderás estabelecer-te no país das gentes de Sunaparanta. Faz agora, Punna, o que considerares ser altura de fazer."
Então, o venerável Punna, satisfeito e agradado com a declaração do Mestre, levantou-se, prostrou-se perante o mestre e, mantendo o seu lado direito orientado para Ele, saiu. Depois, guardou a sua cama e almofada e, pegando na sua padela* e no seu manto exterior, partiu para o país de Sunaparanta e estabeleceu-se lá.
Na estação das chuvas** seguinte converteu não menos que 500 discípulos laicos. Durante essa estação das chuvas ele alcançou os três conhecimentos (1 ). E, durante essa estação das chuvas, alcançou a libertação final (2).
Então um grande número de monges aproximou-se do Mestre e disse: "O companheiro Punna, Mestre, que foi ensinado pelo Mestre com uma breve instrução, faleceu. Para onde foi? Qual será o seu estado futuro?"
-- "Um homem sábio, monges, era o companheiro Punna. Ele praticou de acordo com o Dhamma e não me apoquentou com perguntas sobre o Dhamma. O companheiro Punna, monges, alcançou a libertação total."

(1) Os três conhecimentos são: i) relembrança de existências anteriores, (ii) visão divina, i.e., ver outros seres nascerem e falecerem de acordo com as suas ações, boas ou más, (iii) conhecimento da extinção das negatividades e impurezas próprias. A posse destes três conhecimentos significa que a pessoa é um Arahant ou Totalmente Iluminado.
(2) O alcançamento da libertação final é uma designação para a morte de um Ser Perfeito (Iluminado), o qual já não atrai outro nascimento. Normalmente a morte é simplesmente o prelúdio de outro nascimento.
*NT- Recipiente para recolha das dádivas de comida oferecidas aos monges no ato de mendicância.
**NT- Durante os três meses da estação das chuvas (monção), designada nos meios monásticos por vassa, os monges mantêm-se fixos no mesmo local e fazem um retiro de meditação aprofundado.

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2013/maio 20-26/sem. 21
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXV.84) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

... sentado ao lado do Mestre, o venerável Ananda dirigiu-se-lhe assim:
-- "O mundo, o mundo (loka), dizem. O que significa, Mestre, isso de `o mundo´?"
-- "Tudo o que tenha a natureza de se esfumar (paloka), Ananda, é apelidado de `o mundo´ na disciplina dos Nobres*.
Então, o que é que tem a natureza de se esfumar? O olho, Ananda, ... objetos visíveis... consciência visual... contacto visual... O ouvido... sons... mente... contacto mental... 
E, tudo o que surge condicionado pelo contacto mental, sentido como agradável, desagradável ou neutro -- tudo isso tem a natureza de se esfumar."

*NT- Nobres ou Eméritos são aqueles discípulos que alcançaram a "consciência supramundana", i.e., os 4 Graus de Realização de Nirvana, a saber e por ordem de alcançamento, (1) "Entrado no Fluxo", (2) "Um-retorno", (3) "Sem-retorno" e (4) "Arahant" ou "Merecedor" (Totalmente Iluminado).
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2013/maio 13-19/sem. 20
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXV.71) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se algum monge não comprende, de acordo com a realidade, o surgimento e o fenecimento, a satisfação e a infelicidade,  bem como a libertação das seis bases do contacto, então, não foi totalmente vivida por ele a vida santa, ele está ainda longe deste Ensinamento e Disciplina."
Quando isto foi dito, um certo monge disse para o Mestre:
-- "Quanto a isso, Senhor, eu estou em desespero, porque não compreendo, de acordo com a realidade, o surgimento e o fenecimento, a satisfação e a infelicidade, bem como a libertação das seis bases do contacto."
-- "O que achas, monge, olhas para o olho como `isto é meu´, `eu sou isto´, `isto é a minha pessoa´?"
-- "Não, Senhor."
-- "Isso é bom, monge. Na verdade, ao olhares para o olho como `isto não é meu´, `eu não sou isto´, `isto não é a minha pessoa´, acabarás por o compreender bem, de acordo com a realidade, com a perfeita sabedoria. O fim de todo o sofrimento não é mais do que isso.
Olhas para o ouvido... o corpo... a mente como `isto não é meu´, `eu não sou isto´, `isto não é a minha pessoa´?"
-- "Não, Senhor."
-- "Isso é bom, monge... O fim de todo o sofrimento não é mais do que isso."
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2013/maio 06-12/sem. 19
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 4-- Secção das 6 Bases Sensoriais (XXXV.60) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, vou explicar-vos o Dhamma* para o completo entendimento de todo o anseio...: 
Dependente do olho e objetos visíveis, emerge a consciência visual. À junção destes três elementos dá-se o nome de Contacto. Então, na sequência de ter acontecido esse contacto, surge uma sensação. Compreendendo isso, monges, o instruído Nobre Discípulo fica desprendido em relação ao olho [visão], fica desprendido em relação aos objetos visíveis... à consciência visual... ao contacto visual... fica desprendido em relação à sensação. Sendo desprendido, ele está desapegado, sendo desapegado ele está liberto, sendo liberto ele sabe: `o anseio foi por mim completamente compreendido´.
Dependente do ouvido e sons... do nariz e odores... da língua e sabores... do corpo e objetos tangíveis... 
Dependente da mente e objetos mentais, emerge a consciência mental. O contacto é a junção destes três fatores. A sensação que surge é resultante do contacto. Compreendendo isso, monges, o instruído Nobre Discípulo fica desprendido em relação à mente... aos objetos mentais... à consciência mental... ao contacto mental... fica desprendido em relação à sensação. Sendo desprendido, ele está desapegado, sendo desapegado ele está liberto, sendo liberto ele sabe: `o anseio foi por mim completamente compreendido´.
Este, monges, é o Ensinamento para o completo entendimento de todo o anseio."

*NT- Ensinamento
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2013/abril 29-maio 05/sem. 18
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXVII.10) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Haja seja lá o que for, monges, de anseio ou apego pelo corpo, isso é corrupção da mente. Haja seja lá o que for de anseio ou apego pela sensação..., ... perceção... atividades mentais... consciência, isso é corrupção da mente.
Mas, monges, quando um monge abandonou a corrupção mental em relação a esses cinco, a sua mente está inclinada à renúncia. E uma mente preenchida com (o pensamento de) renúncia está pronta para enxergar aquilo que só é enxergado pelo conhecimento direto."
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2013/abril 22-28/sem. 17
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.102) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"A constatação da impermanência, monges, se cultivada e frequentemente praticada, remove toda a paixão sensual, remove toda a paixão por existência material, remove toda a paixão pelo devir, remove toda a ignorância, remove e elimina toda a presunção do `eu sou´.
Tal como um agricultor no outono, a lavrar com um arado grande, vai cortando todas as radículas espalhadas à medida que vai lavrando, do mesmo modo, monges, a constatação da impermanência, se cultivada e frequentemente praticada, remove toda a paixão sensual... remove e elimina toda a presunção do `eu sou´."
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2013/abril 15-21/sem. 16
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I

Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.71) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

Numa ocasião, o Venerável Radha aproximou-se do Bem-Aventurado e, após se ter prostrado, sentou-se a seu lado. Depois, mantendo-se sentado, dirigiu-se ao Mestre perguntando:
-- "Como podemos saber, Senhor, como podemos ver que, neste preciso corpo dotado de consciência e exteriormente no meio de todos os objetos, não existe a realidade de um eu, de um meu, de uma inerente tendência para a vaidade?"
-- "Seja lá o que for, corpo... sensação... perceção... atividades mentais... consciência, Radha, passado, futuro ou presente, interno ou externo, grosseiro ou subtil, inferior ou superior, longe ou perto, simplesmente, deve ser testemunhado (constatado) como: `isto não é meu´, `eu não sou isto´, `isto não é a minha natureza´; é desta forma que se pode ver de acordo com a realidade, com perfeita sabedoria. Percecionando assim, apreendendo assim, não existe, neste preciso corpo dotado de consciência e exteriormente no meio de todos os objetos, a realidade de um eu, de um meu, de uma inerente tendência para a vaidade."

Então, o Venerável Radha, vivendo em isolamento, recolhido, diligente, entusiástico e determinado, em breve realizaria o aqui e agora, através do seu conhecimento direto, esse inigualável desiderato da vida santa, pelo qual filhos de boas famílias justamente deixam o lar e seguem em frente para a vida sem lar e, nela entrando, nela permanecem. E então ele soube: terminado está o nascimento, vivida está a vida santa, feito está o que tinha de ser feito, não mais haverá esta ou aquela condição. E o venerável Radha tornou-se num dos Seres Perfeitos.
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2013/abril 08-14/sem. 15
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.58) 
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Um Tathagata*, monges, sendo um Ser Perfeito, é totalmente iluminado. Devido a desprendimento pelo corpo, desapego pelo corpo, cessação do (anseio pelo) corpo, é dito `libertado sem anseio´, `totalmente iluminado´. E um monge libertado por sabedoria, devido a desprendimento pelo corpo, desapego pelo corpo, cessação do corpo, é dito `libertado sem anseio´, `libertado por sabedoria´.
Um Tathagata, sendo um Ser Perfeito é totalmente iluminado. Devido a desprendimento por sensação... perceção... atividades mentais... consciência... é dito `libertado sem anseio´, `totalmente iluminado´. E um monge libertado por sabedoria, devido a desprendimento por sensação... consciência... é dito `libertado sem anseio´, `libertado por sabedoria´. Então, monges, qual é a divergência, qual é a distinção, qual é a diferença entre um Tathagata, um Ser Perfeito, um Ser Totalmente Iluminado e um monge libertado por sabedoria?"
-- Para nós, Senhor, essas coisas têm origem no Mestre, nós temos o Mestre como nosso guia, o Mestre como nosso refúgio. Seria bom, na verdade, Mestre, que nos explicasse o significado dessa elocução. Tendo-o ouvido do Mestre, os monges não o irão esquecer."
-- "Então monges, ouçam com atenção, eu vou dizer-vos."
-- "Sim, Mestre, responderam os monges."
O Mestre então disse:
-- "Um Tathagata, monges, Ser Perfeito, Totalmente Iluminado, torna manifesto um caminho até então imanifesto. Ele enxerga um caminho até então não enxergado, Ele proclama um caminho até então não proclamado, Ele é o conhecedor do caminho, é exímio no caminho. Por outro lado, monges, os Seus discípulos trilham, depois, esse caminho**."

*- Buda usava este termo quando se referia a outros Budas.
**- Compare com o texto da semana atrás de 25 fevereiro a 03 março.
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2013/abril 01-07/sem. 14
"Discourses of the Buddha
"Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.33)
  Tradução para português de Nuno Aragão

 Certa vez, estando o Bem-Aventurado residindo perto de Savatthi... disse:
-- "Renunciem, monges, àquilo que não é vosso. A renúncia é para o vosso próprio bem, para a vossa própria felicidade. E, monges, o que é que não é vosso? O corpo, monges, não é vosso... a sensação... a perceção... as atividades mentais... a consciência, monges, não são vossas, renunciem a tudo isso. A renúncia é para o vosso próprio bem, para a vossa própria felicidade.
É como se uma pessoa se deixasse arrebatar, se emocionasse ou se mostrasse deleitada com a relva, os galhos, os ramos ou a folhagem deste bosque Jeta. Ocorrer-vos-ia dizer que a pessoa se arrebatava connosco, se emocionava connosco, se deleitava connosco?"
-- "Certamente que não, Senhor"
-- "Por que razão?"
-- "Porque, Senhor, isso não é nós próprios nem algo que nos pertença."
-- "Do mesmo modo, monges, o corpo não é vosso, renunciem a ele. A renúncia é para o vosso próprio bem, para a vossa própria felicidade. A sensação não é vossa... a perceção não é vossa... as atividades mentais não são vossas... a consciência não é vossa, renunciem a ela. A renúncia é para o vosso próprio bem, para a vossa própria felicidade."
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2013/março 25-31/sem. 13
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.26)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Anteriormente à minha Iluminação, monges, quando eu ainda não estava completamente iluminado, quando era ainda um Bodhisatta*, pensei:
-- O que é satisfação e insatisfação no que respeita ao corpo, e a libertação em relação a ele? O que é a satisfação e insatisfação no que respeita às sensações... perceções... atividades mentais... consciência, e a libertação em relação a elas?
E depois, monges, ocorreu-me o seguinte: Qualquer satisfação ou prazer que surja com base no corpo, isso é satisfação do corpo. Qualquer impermanência, sofrimento ou insubstancialidade que se manifeste ao nível do corpo, isso é insatisfação do corpo. Sempre que ocorra estar-se livre de desejo e apego, de abandono do desejo e do apego no que respeita ao corpo, isso é libertação em relação ao corpo.
Qualquer satisfação ou prazer que surja com base em sensação... perceção... atividades mentais... consciência, isso é satisfação da consciência. Qualquer impermanência, sofrimento ou mutabilidade que surja ao nível da consciência, isso é insatisfação da consciência. Sempre que ocorra estar-se livre de desejo e apego, de abandono do desejo e do apego no que respeita à consciência, isso é libertação em relação à consciência.
Monges, enquanto eu não vi a satisfação como sendo satisfatória, a insatisfação como sendo insatisfatória, e a libertação dos 5 grupos do apego** como liberdade em relação a eles, de acordo com a realidade, enquanto eu não enxerguei isso neste mundo, com os seus devas, demónios e deuses, com os seus devotos e ascetas, e com a sua humanidade com príncipes e homens (comuns), eu não estava completamente iluminado com a inigualável e perfeita iluminação.
Mas quando, monges, eu enxerguei a satisfação como sendo satisfatória, a insatisfação como sendo insatisfatória, e a libertação dos 5 grupos do apego como liberdade em relação a eles, de acordo com a realidade, eu reconheci que... estava completamente iluminado com inigualável e perfeita Iluminação.
E o conhecimento e visão surgiram em mim: Indestrutível é a minha libertação do coração, este é o nascimento final, não há mais devir.

*- Bodhisatta é um termo usado para descrever uma pessoa, neste caso o homem Gotama, antes da sua consecução da completa Iluminação ou Budeidade.
**- Os grupos do apego, enquanto geradores de apego ou enquanto são vistos como "personalidade" ou como "pertencentes a uma personalidade".
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2013/março 18-24/sem. 12
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 3-- Secção dos Grupos da Existência (XXII.5)
  Tradução para português de Nuno Aragão

Assim eu ouvi. Numa ocasião, encontrava-se o Bem-Aventurado próximo de Savatthi... quando se dirigiu aos monges do seguinte modo:
"Desenvolvam a concentração, monges; um monge que seja concentrado, compreende de acordo com a efetiva realidade. E o que compreende ele de acordo com a efetiva realidade? A origem e extinção do corpo, a origem e extinção das sensações, a origem e extinção da perceção, a origem e extinção das atividades mentais e a origem e extinção da consciência."*

* aquilo a que chamamos um "ser", um "indivíduo" ou "eu", de acordo com a filosofia budista é apenas uma, permanentemente mutante, combinação de forças ou energias físicas e mentais, as quais podem ser agrupadas em 5 grupos, chamados Grupos da Existência (ou do Apego), no seio dos quais, Buda identifica a facticidade, a origem e a cessação da insatisfatoriedade da existência. Esses 5 Grupos (também traduzidos por `Agregados´), que constituem a totalidade da existência física e mental, são: (a) Corpo (solidez, coesão, calor, movimento e mais 24 fenómenos corporais deles derivados; (b) Sensação (agradável, desagradável ou neutra); (c) perceção (de formas/cores, sons, odores, sabores e fenómenos tangíveis); (d) atividades mentais, um conjunto de 52 concomitantes mentais liderados pela vontade ou volição, o mesmo termo usado na fórmula da Génese Condicionada (ver atrás na semana 18 a 24 fevereiro) mas aqui incluindo tanto o seu sentido ativo como o passivo; (e) Consciência, cognição, caracterizada em função dos 5 sentidos, como consciência visual, consciência auditiva, etc.
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2013/março 11-17/sem. 11
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 2-- Secção da Condicionalidade (XX.3)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Tal como uma família com muitas mulheres e poucos homens é facilmente roubada por ladrões, do mesmo modo, monges, um monge que não tenha desenvolvido e praticado frequentemente a libertação do coração pelo amor universal (metta)* é facilmente atacado por seres não-humanos.
E, tal como uma família com poucas mulheres e muitos homens dificilmente é roubada por ladrões, do mesmo modo, monges, qualquer monge que tenha desenvolvido e praticado frequentemente a libertação do coração pelo amor universal (metta)* dificilmente é atacado por seres não-humanos. 
Portanto, monges, eu digo-vos que devem treinar-se assim: 
-- Vou desenvolver a libertação do coração através do amor universal, praticarei frequentemente, farei disso um hábito e um objetivo, entrosarei isso e farei um profundo esforço para ficar bem familiarizado com isso."

*- Metta-bhavana, a prática do desenvolvimento do amor universal (amor incondicional dirigido altruisticamente a todos os seres viventes do universo) é altamente valorizada no Budismo. Deve ser desenvolvida independentemente de quais sejam as práticas de meditação usadas. O desenvolvimento deste amor (um dos quatro Estados Sublimes do Budismo), tal como o desenvolvimento da fé (convicção interior) pela contemplação das qualidades de Buda, etc., é de grande importância na vida espiritual, na medida em que constitui um escoador para as emoções e as orienta para além dos valores puramente mundanos.
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2013/março 04-10/sem. 10
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 2-- Secção da Condicionalidade
  Tradução para português de Nuno Aragão
(XIV. 14)
"É por via das características que têm em comum, monges, que os seres se associam e se unem entre si. Desse modo, os seres de índole inferior tendem à associação e à união com seres de índole inferior; e os seres de índole virtuosa tendem à associação e à união com seres de índole virtuosa. Foi assim no passado, será assim no futuro e é assim agora."
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(XV.14-19)
"Inimaginável, monges, é um início para a ronda dos nascimentos. Para os seres obstruídos por ignorância, presos às amarras do apego, migrando e deambulando através da ronda dos sucessivos nascimentos, um ponto inicial não é descortinável. Na verdade, monges, não é fácil a uma pessoa encontrar um ser que não tenha sido anteriormente sua mãe... sido seu pai... seu irmão... irmã... filho... filha, no decorrer desse longo, longo espaço de tempo."
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(XVII. 1)
"Desastrosos, monges, são ganho, honrarias e fama... são um perigo, amargo e severo, para a consecução da insuperável libertação da dependência. Portanto, monges, devem treinar-se assim: `Quando ganho, honrarias e fama surgirem, não os vou assumir e impedilos-ei de estabelecerem um poiso no meu coração´."
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(XX.1)
"Tal como as vigas de um telhado encimado por um pico se orientam para o pico, se encontram no pico e se juntam no pico, do mesmo modo, monges, sejam quais forem os estados mentais impróprios ou nefastos que se manifestem, todos eles têm a sua origem na ignorância, são pares na ignorância e são unidos pela ignorância. Por essa razão, monges, devem desenvolver o vosso treino mental focando-se assim: `trabalharei com total diligência´."
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2013/fevereiro 25-março 03/sem. 9
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
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Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland
- Parte 2-- Secção da Condicionalidade (XII.65, extrato)
  Tradução para português de Nuno Aragão
 
"Monges, é como se uma pessoa, vagueando pela mata, a grande floresta, visse um antigo trilho, um antigo caminho, que havia sido percorrido por homens de antigamente. E resolvesse seguir por esse caminho e, ao percorrê-lo, deparasse com uma cidade antiga, uma antiga cidade real que homens de antigamente habitaram, com matas, bosques, lagos e muros -- um local encantador. Então essa pessoa iria informar o rei ou o ministro principal do rei, dizendo: `vossa senhoria deveria saber que eu, vagueando pela mata, a grande floresta, vi um antigo trilho, um antigo caminho, que havia sido percorrido por homens de antigamente. E que eu, tendo seguido ao longo desse caminho, vi uma cidade antiga, uma antiga cidade real que homens de antigamente habitaram, com matas, bosques, lagos e muros -- um local encantador. Senhor, reconstrua aquela cidade. E então, o rei ou o ministro principal do rei, decidiram reconstruir a cidade, a qual com o tempo se tornou rica, próspera, muito populosa e desenvolvida.

Do mesmo modo, monges, eu descobri um antigo trilho, um antigo caminho, percorrido por seres totalmente Iluminados de outrora. E qual é, monges, esse antigo trilho, esse antigo caminho percorrido por seres totalmente Iluminados de outrora? É precisamente o Óctuplo Nobre Caminho, o mesmo é dizer, o correto entendimento, a correta postura mental, o correto modo de falar, a correta ação, o correto modo de vida, o correto esforço, a correta atenção e a correta concentração.

Esse é o antigo trilho, o antigo caminho, percorrido por seres totalmente Iluminados de outrora e, ao percorrê-lo, eu vim a conhecer o envelhecimento-e-morte, vim a conhecer a origem do envelhecimento-e-morte, vim a conhecer a cessação do envelhecimento-e-morte, vim a conhecer o caminho que conduz à cessação do envelhecimento-e-morte. Ao percorrê-lo eu vim a conhecer o nascimento... o processo de existência... o apego... o desejo ardente..., vim a conhecer as atividades volitivas, vim a conhecer a origem das atividades volitivas, vim a conhecer a cessação das atividades volitivas, vim a conhecer o caminho que conduz à cessação das atividades volitivas.

Tendo-o compreendido (por experiência pessoal), ensinei-o a monges e monjas, a seguidores laicos tanto homens como mulheres, de tal modo que esta vida santa se tornou rica, próspera e muito difundida, conhecida de muitos, largamente conhecida de devas e homens."
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2013/fevereiro 18-24/sem. 8
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
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Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland
- Parte 2-- Secção da Condicionalidade (XII.1)
  Tradução para português de Nuno Aragão

O Mestre disse: "Monges, vou ensinar-vos a Génese Condicionada, ouçam com atenção."
"Sim Senhor", responderam os monges.
O Mestre disse: "Então o que é a Génese Condicionada? Tendo a ignorância como condição, monges, surgem as atividades volitivas; tendo as atividades volitivas como condição, surge a consciência; tendo a consciência como condição, surge a mente-e-corpo; tendo a mente-e-corpo como condição, surgem as seis bases sensoriais; tendo as seis bases sensoriais como condição, surge o
contacto; tendo o contacto como condição, surge a sensação; tendo a sensação como condição, surge o desejo ardente; tendo o desejo ardente como condição, surge o apego; com o apego como condição, surge o processo de existência; tendo o processo de existência como condição, surge o nascimento; tendo o nascimento como condição, surgem envelhecimento e morte, tristeza, lamentação, dor, aflição, desespero. É assim que se origina toda a massa de sofrimento. A isto, monges, chama-se a fórmula da Génese Condicionada.

Por outro lado, com base no completo desaparecimento  e cessação da ignorância, as atividades volitivas cessam; com base na cessação das atividades volitivas, a consciência cessa; com base na cessação da consciência, mente-e-corpo cessa; com base na cessação da mente-e-corpo, as seis bases sensoriais cessam; com base na cessação das seis bases sensoriais, o contacto cessa; com base na cessação do contacto, a sensação cessa; com base na cessação da sensação, o desejo ardente cessa; com base na cessação do desejo ardente, o desapego cessa; com base na cessação do apego, o processo de existência cessa; com base na cessação do processo de existência, o nascimento cessa; com base na cessação do nascimento, o envelhecimento-e-morte, a tristeza, a lamentação, a dor, a aflição e o desespero cessam. É assim que tem lugar a cessação de toda esta massa de sofrimento."
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2013/fevereiro 11-17/sem. 7
"Discourses of the Buddha"

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- Parte 1-- Secção dos Versos (XI.2.1)
  Tradução para português de Nuno Aragão

"Outrora, monges, num tempo em que era um ser humano, Sakka -- o chefe dos deuses, comprometeu-se a praticar, de forma incessante, sete regras de conduta, em resultado do que alcançou a sua atual posição de honra. Que sete?

- Durante toda a minha vida, apoiarei minha mãe e meu pai;
- Durante toda a minha vida, respeitarei os idosos da minha família;
- Durante toda a minha vida, falarei amável e afavelmente;
- Durante toda a minha vida, não falarei maliciosamente;
- Durante toda a minha vida, viverei com a mente liberta da nódoa do egoísmo, generosa, recetiva, agradada com o abandono (de possessões), aberta a solicitações, apreciando dar e partilhar com outros;
- Durante toda a minha vida, falarei de acordo com a verdade;
- Durante toda a minha vida, controlarei a ira ou, se a ira se manifestar em mim, dispersá-la-ei rapidamente."
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2013/fevereiro 04-10/sem. 6
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
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Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 1-- Secção dos Versos (III.1.4)
  Tradução para português de Nuno Aragão

Assim eu ouvi: Certa vez, estava o Bem-Aventurado residindo no bosque Jeta, no mosteiro Anathapindika. Então, o rei Pasenadi de Kosala aproximou-se do Mestre, prostrou-se e sentou-se a seu lado. Aí sentado, o rei Pasenadi exclamou:
"Senhor, tendo-me afastado do bulício e estando isolado, surgiu-me a seguinte reflexão: Quem se ama a si próprio? Quem não se ama? Então, Senhor, pensei: Os que têm conduta errada, em ação, fala ou pensamento, não se amam a si próprios. Embora possam dizer: `Eu amo a minha pessoa´, na verdade, eles não amam. Porquê isso? Porque eles fazem a si próprios o que o odioso faz a quem odeia. Portanto, eles não se amam a si próprios.
Mas os que praticam a conduta correta, em ação, fala ou pensamento, amam-se a si próprios. Embora possam dizer: `Eu não amo a minha pessoa´, na verdade, eles amam. Porquê isso? Porque eles fazem a si próprios o que um amigo faz ao seu amigo. Portanto, eles amam-se a si próprios."

E Buda disse:
"É verdade, rei, é verdade...
Aquele que vê a sua pessoa como uma sua posse querida,
Não seja ele, ao mal, ligado.
A fugaz alegria do fazedor do mal
Não é um bom negócio.
Quando assolado pelo `Terminador´, a morte,
Deixando a existência humana,
De que lhe serve a possessão
E o que pode ele, então, levar consigo?
O que é que o seguirá,
Qual sombra, nunca se afastando?

Quer as boas quer as más ações
Que um mortal faz aqui
São elas, na verdade, a possessão
Que levará consigo.
As suas ações segui-lo-ão,
Qual sombra, nunca se afastando.

Assim, deve praticar-se boas ações,
Uma armazenagem para o futuro.
Porque, na verdade, as boas ações concedem,
No mundo vindouro, uma ajuda preciosa".
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2013/janeiro 28-fevereiro 03/sem. 5
"Discourses of the Buddha"
Samyutta Nikaya -- An Anthology I
Edição de Buddhist Publication Society
Seleção e tradução do Pali de John D. Ireland

- Parte 1-- Secção dos Versos (I.1.10)
  Tradução para português de Nuno Aragão

Assim eu ouvi:- Certa vez, estava o Bem-Aventurado residindo no bosque Jeta, no mosteiro Anathapindika quando, durante a noite, uma divindade ["deva" - habitante de um dos vários céus], iluminando todo o bosque com sua inultrapassável beleza, se acercou de Buda. Já perto da alvorada, prostrou-se diante do Mestre e levantando-se, colocou-se a seu lado exclamando:
"Aqueles vivendo na floresta,
Pacíficos e calmos, de vida pura
E comendo não mais que uma refeição por dia,
Como é que têm um aspeto tão radioso?"
O Mestre respondeu:
"Eles não lamentam aquilo que é passado,
Não têm ânsias em relação ao futuro,
O presente é-lhes suficiente.
É por isso que eles têm um aspeto tão radioso.

Tendo ânsias em relação ao futuro
E lamentando o que já é passado,
Desse modo os tolos definham
Como um frágil junco arrancado."
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2013/janeiro 22-27/sem. 4
"A prática ascética por excelência
É a paciência e a tolerância.
`Nirvana é supremo´, dizem os Budas.
Não é eremita esse que maltrata outrem
Nem asceta é aquele que o molesta."
Dhammapada, versículo 184
(do livro "O Ensinamento de Buda", p. 227, Edit. Estampa)
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2013/ janeiro 14-20/sem. 3
"Não tendo vivido a Vida Santa e
Não tendo obtido riqueza quando vigorosos,
Os homens desfalecem como velhas garças
Em lago falho de peixe."
Dhammapada, versículo 155
(do livro "O Ensinamento de Buda", p. 225, Edit. Estampa).
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2013/ janeiro 07-13/sem. 2
"À imagem de um lago
Profundo, cristalino e tranquilo,
Também o sábio fica tranquilo
Ao ouvir o Ensinamento."
Dhammapada, versículo 82
(do livro "O Ensinamento de Buda", p. 221, Edit. Estampa)
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2013/2012 dezembro 31-2013 janeiro 06/sem. 1
"O resultado da ação errada que lamentamos ter feito
Será experienciado com as faces plenas de lágrimas."
Dhammapada, versículo 67
(do livro "O Ensinamento de Buda", p. 221, Edit. Estampa)
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