31 março 2014

Resposta a Methanoia sobre Vipassana

Caro amigo meditante Methanoia2012, lamentamos o nosso lapso de não termos respondido à sua questão. Mas, como se costuma dizer, `mais vale tarde que nunca..., aqui lhe enviamos, com as nossas desculpas, a resposta à sua questão.

A Vipassana é basicamente um treino para se desenvolver uma atenção desprendida, sem envolvimento emocional, no apercebimento da realidade, muitas vezes designada por `atenção plena´ mas à qual preferimos chamar `atenção vigilante´ por ser na verdade semelhante à atitude do vigilante ou do sentinela que, na sua guarita, procura estar ciente de tudo o que surja, de tudo o que se manifeste no seu raio de visão, e isso sem qualquer interferência sua (no sentido de corrigir, precaver, recusar, reter, etc), porque aquilo em que está interessado é em saber a natureza intrínseca daquilo que se manifesta, não constituindo, por outro lado, qualquer problema para ele se se der o caso de nada se manifestar (ele está desprendido, não interferente, ainda que com toda a lucidez). Esse treino visa assim desenvolver a nossa capacidade para percecionar a verdadeira natureza da realidade, i.e., sem a deformação que a introdução do nosso lado emocional coloca, já que é necessariamente subjetivo e parcial e, portanto, propiciador de uma perceção manchada por erro. 

Na prática, a realidade de onde se parte é a nossa própria realidade física e mental. Trata-se, portanto, de uma observação (que é desenvolvida, de acordo com o discurso de Buda chamado Satipatthana Sutta, em 4 planos: I- O Corpo; II- As Sensações; III- A Mente; e IV- Os Objetos Mentais). A observação de uma qualquer coisa é mais profícua quando a podemos observar de forma contínua e durante um maior intervalo de tempo. É por isso que a concentração é importante para a Vipassana, porque quanto maior for a concentração, mais tempo podemos estar focados nessa atitude de observação desprendida, sem focalização em qualquer objeto específico, mas porém, capazes de percecionar diretamente qualquer coisa (confortável ou não, apetecível ou não, repugnante ou não) que surja no horizonte do meditante sem qualquer interferência sua.

Por essa razão, o treino na Vipassana tem vantagem quando é antecedido de um treino para desenvolvimento da concentração (meditação Samatha), o qual é exercido através do treino na focalização contínua num único objeto, cujo desenvolvimento tem diversas fases, sendo a última a fase das absorções meditativas (ou Jhanas). Considera-se suficiente como nível de concentração a alcançar para a prática de Vipassana em boas condições, o chamado `Patamar de Vizinhança´ -- vizinhança dos níveis de Absorção Meditativa --, não sendo portanto necessário entrar neste último patamar, o das absorções, já que o patamar de vizinhança já confere suficiente estabilidade e continuidade de observação (sem as frequentes e inevitáveis interrupções do início) na prática meditativa.

(NOTA: a prática desenvolve-se pondo de parte qualquer elaboração mental; assim, todas as referências e fases atrás referidas nada têm de conceptual (nada há que entender à partida), antes é o próprio desenvolvimento da prática que vai evidenciando em que fase vai estando o praticante. Contudo, é sempre aconselhável, quando possível, ter o apoio de um professor de meditação, alguém que é suposto ter percorrido até ao fim toda a prática da meditação, estando assim em condições de entender o tipo de dificuldade ou desvio que esteja a ocorrer na prática de cada orientando)

Para maior desenvolvimento deste assunto, em português, recomendamos o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, editorial Estampa e o livro "O Caminho do Meio -- a prática budista" de Bhikkhu Bodhi, editora Pergaminho.

Desejamos-lhe boa sorte na sua pesquisa e no seu caminho espiritual.
Ao seu dispor para quaisquer esclarecimentos adicionais

Metta
Nuno Aragão

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