Perguntas Frequentes

1- Quem foi Buda?
2- O que é o Budismo?
3- Quais são os aspectos fundamentais do Budismo?
4- Existem diferentes tipos de Budismo?
5- Deve o Budismo ser entendido como uma filosofia, uma psicologia ou uma religião?
6- O que deve entender-se por iluminação?
7- É o Carma um tipo de justiça superior?
8- O que é a meditação da Tranquilidade?
9- O que é a meditação Vipassana?
10- Como acalmar a mente durante a meditação?
11- Qual a importância da disciplina?
12- A Ética budista é aplicável no quadro das sociedades modernas ocidentais?


1- Quem foi Buda?
Buda foi um ser extraordinário e um professor espiritual único. O seu nome pessoal era Siddhattha (Sânsc., Siddharta) e o seu nome de família era Gotama (Sânsc. Gautama), e viveu no Norte da Índia, no séc. VI antes de Cristo. Seu pai, Suddhodana, era o governante do reino dos Sākyas. O príncipe Siddhattha nasceu no Parque Lumbini, no Nepal, junto à actual fronteira com a Índia.
Apesar da sua condição de nascimento e da vida palaciana que tinha à sua disposição, a sua natureza contemplativa e o aperfeiçoamento de qualidades como amor universal e compaixão pelo sofrimento humano levaram-no a pôr de lado todo o luxo, riqueza e prosperidade de que usufruía quando foi subitamente confrontado com a realidade da vida e o sofrimento da humanidade. Decidiu então dedicar a sua vida à busca do entendimento da natureza da realidade e da solução para o sofrimento universal. Renunciou ao reino e, aos 29 anos de idade, assumiu uma vida de asceta, em busca da verdade e da paz eterna.
Durante seis anos percorreu o vale do Ganges, conheceu famosos professores religiosos e seguiu os seus ensinamentos e métodos, submetendo-se a intensas práticas ascéticas. Porém, tendo concluído que essas práticas não conduziam à libertação final, decidiu abandonar todas as religiões tradicionais e seus métodos, e trilhar o seu próprio caminho.
Finalmente, volvidos seis anos de aturado esforço, sentado em meditação sob uma árvore, Gotama alcançou o seu desiderato, Nirvana, após o que passou a ser conhecido como Buda, o Iluminado. A partir daí, durante quarenta e cinco anos e até ao final dos seus dias, dedicou-se a dar a conhecer a todas as classes de homens e mulheres — sem fazer qualquer distinção entre eles, fossem brâmanes ou proscritos da sociedade, banqueiros ou pedintes, homens santos ou ladrões — essa verdade, tão difícil de descortinar, que alcançara.
Foi um homem inigualável em sabedoria e compaixão. Dedicou a sua vida ao serviço da humanidade e deixou-nos como legado um sistema de autodomínio e desenvolvimento pessoal que mantém, ainda hoje, mais de 2500 anos depois, toda a sua actualidade e eficácia.

2- O que é o Budismo?
O Budismo é o sistema de desenvolvimento espiritual ensinado por Buda há mais de 2500 anos. Ele explica que a vida está sujeita a um condicionalismo inerente e ensina o caminho para a sua superação, a libertação de toda a insatisfação ou sofrimento.
Fornecendo uma base ética para a vida quotidiana, que é tão actual hoje em dia como o foi ao tempo de Buda, o Budismo estabelece um sistema contemplativo concebido para promover o autoconhecimento, o autodomínio, a auto-purificação e a iluminação.
Embora enfatize de forma particular o empenhamento pessoal e uma abordagem focada na experimentação, o treinamento budista desenvolve igualmente qualidades como o amor incondicional e universal ou a solidariedade e o serviço aos outros, num quadro de equilíbrio entre coração e mente, entre a bondade e o discernimento.
Buda incitou sempre os seus estudantes a não se deixarem guiar pelo peso de textos religiosos, pela tradição, pela mera lógica ou dedução, pelas aparências, ou pelo estatuto de superioridade de outrem, mas a procurarem penetrar a verdade por si próprios.
Os ensinamentos éticos e filosóficos de Buda têm de ser estudados, praticados e, acima de tudo, realizados pela nossa própria sabedoria, através da cultivação da visão interior.

3- Quais são os aspectos fundamentais do Budismo?
O ensinamento de Buda é sintetizado nas Quatro Sublimes Verdades, as quatro verdades universais. Elas são: A realidade da insatisfação, a causa da insatisfação, a cessação da insatisfação e o caminho que conduz à cessação da insatisfação.
A insatisfatoriedade inerente à existência abarca qualquer situação desde a pequena perturbação que experimentamos com a mais leve irritação, passando por incidentes maiores como a doença grave, a associação com pessoas ou condições desagradáveis, a dissociação de entes queridos ou de condições agradáveis, ou a não obtenção daquilo que pretendemos, até aos aspectos mais subtis como a perturbação sentida em resultado da impermanência, da falibilidade ou da inconfiabilidade das situações da vida. Esta subtil noção budista de insatisfatoriedade não deixa mesmo de incluir algumas situações de felicidade, quando delas resultam preocupações no sentido de as manter ou preservar, do medo de as vir a perder, etc. A causa da insatisfação, diz Buda, é o anseio, o querer que a vida seja diferente daquilo que realmente é. Buda explica que quando todo o anseio é erradicado, termina todo o sofrimento, ou insatisfação. Para que outros pudessem também realizar a verdade e alcançar Nirvana, Buda ensinou uma prática a que chamou o “Caminho do Meio”, constituída por oito factores, que os praticantes devem cultivar: compreensão correcta, postura correcta, fala correcta, acção correcta, modo de vida correcto, esforço correcto, atenção correcta e concentração correcta.

4- Existem diferentes tipos de Budismo?
Há duas correntes principais no Budismo. Uma é a corrente original formada após o falecimento de Buda que se espraiou por dezoito escolas, diferenciadas entre si por pequenas questões de pormenor, das quais a única que perdurou intacta foi a escola “Theravada”, o chamado Budismo do Sul, que hoje predomina em países do Sudeste asiático, como o Sri Lanka, o Myanmar (antiga Birmânia), a Tailândia ou o Cambodja.
A outra é a corrente “Mahayana”, o Budismo do Norte, que predomina em países como a Coreia, o Japão, o Tibete ou a Mongólia. Aconteceu que entre o Séc. I AC e o Séc.I, cerca de cinco séculos depois de Buda, foi gradualmente emergindo uma nova corrente histórica de Budismo, a escola Mahayana, na qual se distinguem duas linhas principais, a Tradição Zen (o chamado Budismo japonês/coreano) vinda da China e chegada à Coreia e Japão por alturas do século I, e a tradição Vajrayana (o chamado Budismo tibetano) vinda da Índia e chegada ao Tibete por volta do século VIII, já cerca de 1300 anos depois de Buda. Os pensadores da Mahayana alteraram o conceito de “bodhisattva” e proposeram ainda uma interpretação radical para a sabedoria, vista como o discernimento da vacuidade ou “shunyata”, a qual porém e em rigor, não é original, já que é conforme ao ensinamento de “Anatta”, “Não-Alma”, encontrado nos antigos textos do Cânone Pali da Theravada. O Budismo Vajrayana baseou-se em textos esotéricos chamados “tantras” e juntou às perspectivas doutrinais da Mahayana inicial, rituais mágicos, simbolismo místico e complicadas práticas iogues.

Assim, em relação às três formas históricas do Budismo:
(I) Por um lado diferem no grau de comprometimento em relação ao ensinamento: a Theravada contempla unicamente o legado original de Buda, a Mahayana associa-lhe contributos de outros pensadores, e a Vajrayana (Budismo tibetano) introduz, além disso, aspectos da religião Bon que predominava no Tibete aquando da sua chegada.
(II) Por outro lado, convergem nos aspectos mais importantes: aceitam o Buda Sakyamuni como Professor, as mesmas Quatro Sublimes Verdades, a mesma doutrina da Génese Condicionada, coincidem nas ideias de Anicca, Dukkha, Anatta, Sila, Samadhi e Panna, e não acomodam a noção de um ser supremo e eterno como criador do mundo.

5- O Budismo deve ser entendido como uma filosofia, psicologia ou religião?
Independentemente da classificação que lhe atribuamos, filosofia, psicologia, religião ou qualquer outra, o Budismo continuará a constituir uma moldura ética completa para o dia-a-dia e um sistema abrangente de aperfeiçoamento pessoal, cuja adopção assegura paz, discernimento e harmonia, tanto em termos individuais como sociais.
O ensinamento de Buda pode ser encarado como uma filosofia na medida em que fornece um entendimento abrangente e coerente da realidade, mas não pode ser considerado uma mera filosofia. Antes de mais, o Dhamma (Sânsc. Dharma) de Buda é um sistema prático de desenvolvimento mental, através do qual as verdades mais subtis da existência são realizadas por experiência pessoal e directa.
A sua prática promove uma transformação pessoal, razão pela qual é visto como um tipo de psicologia. Contudo, a eficácia do ensinamento é mais notória quando as pessoas já conduzem as suas vidas de uma forma mais ou menos estável e por outro lado já valorizam a atitude de contemplação e de examinação das suas experiências e vivências.
O resultado final da prática — a iluminação — está muito além, quer da filosofia quer da psicologia. Ele consiste na completa e definitiva erradicação de toda a cobiça, aversão e ilusão, i.e., na cessação irreversível do sofrimento. Buda defendeu que a iluminação pode unicamente ser alcançada pelo nosso esforço. Por conseguinte, o Budismo não poderá, em rigor, ser considerado uma religião de fé.

6- O que deve entender-se por Iluminação?
Uma definição tradicional de Nirvana (o estado de Iluminação) diz que é a total erradicação da cobiça, da aversão e da ilusão, sendo, por isso, a libertação permanente de toda a insatisfação. É a eliminação de todas as compulsões interiores e o fim de toda e qualquer dependência psicológica do mundo. São distinguidos dois tipos de Nirvana: (1) Nirvana durante o decurso da vida presente (dito Nirvana "com manutenção dos cinco grupos"); e (2) o Nirvana após a disfunção do corpo onde, como diz Buda, "não têm lugar os quatro elementos de solidez, fluidez; as noções de comprimento e largura, de subtil e grosseiro, de bem e de mal, de nome e de forma são totalmente destruídas; tal como não são possíveis as noções deste mundo nem do outro, de vir, ir ou ficar, de morte ou de nascimento, nem a existência de quaisquer objectos sensoriais, i.e., de algo que possa ser percepcionado".

7- É o Carma um tipo de justiça superior?
A palavra pali kamma (Sânsc. Karma) significa literalmente ação ou fazer. Mas no Budismo, a palavra não significa toda e qualquer acção, mas unicamente acção intencional, volitiva. Qualquer tipo de acção volitiva, seja ela mental, verbal ou física, é entendida como carma. Por outro lado, qualquer acção produz resultados (em Pali, kamma vipaka) que são experienciados posteriormente pelo seu autor. Ações demeritórias, egoístas, resultam sempre em consequências desagradáveis, enquanto que as acções meritórias têm consequências agradáveis, tal como o tipo de fruto é a consequência inevitavel da semente que foi plantada.
A noção de “justiça moral” ou “recompensa e punição”, que provém da ideia de um ser superior que se posiciona em julgamento, é alheia ao Budismo. No pensamento budista não há qualquer entidade exterior a fazer justiça. Pelo contrário, a expressão das consequências do carma é um processo natural, automático e inevitável, de causa e efeito, ou seja, despojado de enquadramento cognitivo ou volitivo. E é assim que a boa ação volitiva produz, automática e inevitavelmente, um bom resultado, e a má ação volitiva produz, do mesmo modo, um mau resultado.
O efeito de uma acção pode manifestar-se quer ainda nesta vida quer numa vida vindoura. O Budismo considera que nem com a morte, i.e., a total disfunção do corpo físico, são desfeitas as forças e energias físicas e mentais que constituem um ser, as quais, mantendo-se activas, transportam consigo a potencialidade das suas consequências.
Seja a acção boa ou má, está sempre incluída no ciclo da continuidade da vida, samsara, com excepção do caso do arahant — ser totalmente iluminado — o qual, embora aja, não acumula carma, i.e., não introduz uma força dinâmica no processo porque quando actua, o faz de forma extra pessoal devido ao facto de já ter transcendido a falsa ideia de individualidade e ter superado todas as outras negatividades. Por isso, não pode haver renascimento para ele.

8- O que é a meditação da Tranquilidade (Samatha)?
É a meditação que visa acalmar a mente através do desenvolvimento da concentração. A agitação da mente é produto da vida agitada que levamos, bem como do conjunto de impulsos e tendências perturbantes, latentes no subconsciente, que acumulámos ao longo das nossas vivências e experiências. O desenvolvimento da concentração é feito através da focalização da mente num único objecto e dessa forma treinando a mente a fixar-se em vez de saltitar de pensamento em pensamento.
Esta meditação visa, em primeiro lugar, alcançar um patamar de concentração autosustentada, o qual é uma base de apoio necessária ao desenvolvimento da meditação vipassana. Porém, o desenvolvimento da concentração permite alcançar os planos de absorção, os chamados "jhanas", no topo dos quais se encontram os ditosos estados sublimes dos jhanas imateriais os quais, de acordo com Buda, conferem elevados méritos a quem os alcança.

9- O que é a meditação da Sabedoria (Vipassana)?
Vipassana pode ser designada por meditação da atenção vigilante. Ela cultiva a postura discernidora, objectivamente não interventiva, serena e constante, própria da atitude do vigilante, da testemunha silenciosa, ou do cientista que observam o desenrolar da experiência.
A meditação da sabedoria diferencia-se da meditação da tranquilidade por não pretender controlar a mente nem alcançar qualquer estado mental; esta meditação da tranquilidade, embora tenha efeitos muito benéficos e dê origem a estados mentais maravilhosos, não pode, por si própria, conduzir à iluminação.
A meditação Vipassana, por outro lado, é a prática que elimina o desconhecimento em relação à forma como a vida é na realidade, e cria as condições mentais para que a iluminação possa acontecer. Ela procura ver as coisas tal como elas realmente são e identifica, em particular, as três características da existência, i.e., de todas as coisas condicionadas, nomeadamente, a transitoriedade, a insatisfatoriedade e a impersonalidade (ausência de uma individualidade constante ou alma).

10- Como acalmar a mente durante a meditação?
Antes de mais, há que entender que aquilo que experienciamos em meditação, é o resultado da maior ou menor agitação com que conduzimos a nossa vida e da consequente impregnação que as nossas vivências deixam na nossa mente. Assim, é conveniente que o meditador empenhado pondere o estilo de vida que leva, de modo a gerar as melhores condições de apoio à sua aplicação na prática meditativa.
Simultaneamente há que cultivar a chamada atenção vigilante, de modo a desenvolver a capacidade de notação daquilo que ocorre durante a meditação. Durante a prática, sempre que identifica e reconhece a presença de uma qualquer agitação ou elaboração mental a ocorrer no momento, o meditador, com tolerância e ciente das condições que a determinaram, tranquila e repetidamente traz a mente de volta ao seu objecto de meditação.
Este processo contém a chave da efectiva e definitiva transformação interior, e assegura a transição do domínio da mente subjectiva e condicionada para a pujança da mente objectiva e não condicionada.

11- Qual a importância da disciplina?
A própria liberdade depende de limites para existir. Na verdade, a liberdade sem limites confunde-se com libertinagem, com ausência de regras e de direitos, promove o lado negativo, agrilhoa a ele e, como qualquer dependência, trabalha no sentido oposto da libertação. Assim, a prática meditativa apoia-se em regras de conduta que promovem a pacificação e ajudam a prevenir a agitação na mente do praticante. É este o sentido da Moral/Ética budista e a razão da ênfase na disciplina e autodomínio, porque a real libertação não é a libertação de algo exterior que, por ignorância, seja tido por opressivo, mas antes e simplesmente, a libertação dos grilhões próprios, das negatividades e dependências interiores que turvam a visão da verdadeira natureza da realidade.
As regras comportamentais básicas no Budismo são: para os laicos, há cinco preceitos, a saber, abstenção de matar ou lesar qualquer ser vivo, de roubar ou tomar o que não foi dado, de conduta sexual ilícita, de modo de falar incorrecto, e de bebidas intoxicantes ou drogas. O seu cumprimento assegura harmonia no enquadramento exterior, a qual é indispensável para a eficácia da prática e o progresso na meditação. Durante um retiro de meditação, há regras adicionais, como abstenção de comer fora dos horários estabelecidos, de usar dinheiro, de uso de adornos ou embelezamentos, como maquilhagem ou perfume, de comunicar directamente ou por carta, etc.
Os monges respeitam um extensivo conjunto de 227 regras cobrindo todos os aspectos da vida, tanto no interior da comunidade como em relação ao exterior, desde a forma de usar os mantos até à forma de expor o ensinamento.

12- A Ética budista é aplicável no quadro das sociedades modernas ocidentais?
Embora Nirvana signifique a libertação final dos condicionalismos do mundo, temos de viver e de lidar com as condições da existência mundana, onde as solicitações e atracções da vida secular tendem a atrair-nos para fora da via da libertação. Buda ensinou os seus discípulos laicos a organizarem a sua vida de acordo com os princípios éticos do Ensinamento e a conduzir a vida sem se afastarem do caminho e da rectidão.
Ainda que as sociedades actuais apresentem formalmente grandes diferenças em relação à sociedade do tempo de Buda, as sociedades são formadas por homens e a natureza profunda do ser humano mantém-se inalterada. Será tanto mais visível e clara a aplicabilidade da ética budista nas sociedades actuais, quanto mais aprofundarmos o entendimento da mente humana e menos nos deixarmos confundir com a variedade de expressões superficiais que emanam das sempre mutáveis diferenciações socio-culturais no espaço e no tempo.
Por um lado a ética constitui uma base para a cultivação do caminho e por outro, a cultivação do caminho permite compreender a importância da ética para enfrentar, de forma equilibrada e duradoura, os desafios que a vida em sociedade coloca.