Reflexão da Semana

PARA LEITURA DAS "REFLEXÃO DA SEMANA" DE
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(coluna da direita, em baixo)
2016/junho 27-julho 03/sem. 25
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Onze -- "As Bênçãos do Amor Universal*" (XI. 16)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se a libertação do coração pelo amor universal for cultivada, desenvolvida, praticada frequentemente, tornada veículo e essencial na pessoa, firmemente estabelecida, consolidada e aperfeiçoada adequadamente, onze bênçãos podem ser esperadas. Quais são essas bênçãos?
-- A pessoa dorme pacificamente; não tem maus sonhos; é querida aos seres humanos, é querida aos seres não humanos; será protegida por divindades; fogo, veneno e armas não podem feri-la; a sua mente concentra-se com facilidade; as feições da sua face serão serenas; morrerá sem mente confusa; e, se a pessoa não tiver penetrado mais alto, renascerá no mundo-de-Brahma [plano de existência muito elevado]."

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*- O Amor Universal é um dos quatro "Estados Sublimes" (altamente venerados no Budismo) e é definido como amor de mãe (amor incondicional) mas extensivo a todos os seres sensíveis do universo. Mais info no livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Editorial Estampa, 2005.
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2016/junho 20-26/sem. 24
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "A Extinção do Carma" (X. 206- extrato)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Eu afirmo, monges, que ações intencionais (carma), desenvolvidas e acumuladas, não se tornarão extintas enquanto os seus resultados não forem experienciados; seja isso nesta vida, na próxima ou em vidas vindouras.
Enquanto os resultados das ações intencionais, desenvolvidas e acumuladas, não tiverem sido experienciados, não haverá fim para o sofrimento, eu afirmo."
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2016/junho 13-19/sem. 23
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Não Fora da Disciplina de Buda" (X. 123, 124, 126, 127)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Dez coisas, monges, não têm nem pureza nem clareza fora da Disciplina do Sublime Mestre. Quais dez? Correta compreensão, correta propensão, correta fala, correta ação, correta vivência, correto esforço, correta atenção, correta concentração, correto conhecimento, correta 
libertação.
E se estas dez coisas não tiverem ainda surgido, elas não surgirão fora da Disciplina do Sublime Mestre.
Fora da Disciplina do Sublime Mestre, estas dez coisas não desembocarão na eliminação da cobiça, da aversão nem da delusão.
Fora da Disciplina do Sublime Mestre, estas dez coisas não conduzirão inteiramente ao repúdio, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nirvana."
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2016/junho 06-12/sem. 22
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Nascimento, Envelhecimento e Morte" (X. 76-extrato 4)
Tradução para português de Nuno Aragão

... "Porém, abandonando três coisas, fica-se capaz de abandonar nascimento, envelhecimento e morte. Quais são? Cobiça, ódio e delusão.
Ao abandonar três coisas, fica-se capaz de abandonar a cobiça, o ódio e a delusão. Quais são? Crença em [permanente] personalidade, dúvida cética e crença em rituais e cerimoniais [como indutores da libertação].*

(E continua com a mesma sequência de termos de acima, até:)
Ao abandonar três coisas, é-se capaz de abandonar desrespeito, teimosia e más amizades. Quais são? Falta de vergonha, falta de escrúpulos morais e imprudência.

... Agora considerem o caso de alguém que não é sem vergonha, que tem escrúpulos e que é atento. 
Sendo atento, ele pode abandonar desrespeito, teimosia e más amizades. Tendo bons amigos, ele pode abandonar a falta de convicção [crença], a falta de calor humano e a indolência. Sendo determinado, pode abandonar a agitação mental, a falta de autodomínio e a imoralidade. Sendo virtuoso, pode abandonar o desinteresse em visitar as pessoas nobres, o desinteresse em ouvir os seus ensinamentos ou a mentalidade criticadora...
... Sem lassidão mental, ele pode abandonar a crença em [permanente] personalidade, a dúvida cética e a crença em rituais e cerimoniais [como indutores da libertação]. Estando livre da dúvida, ele pode abandonar cobiça, ódio e delusão.
E tendo abandonado a cobiça, o ódio e a delusão, pode abandonar nascimento, envelhecimento e morte."

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*- Na época de Buda, a transmissão do conhecimento fazia-se por via oral. Daí, o uso de ritmo e de repetições no discurso para facilitar a memorização.
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2016/maio 30- junho 05/sem. 21
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Nascimento, Envelhecimento e Morte" (X. 76-extrato 3)
Tradução para português de Nuno Aragão

"... sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar ausência de convicção [crença], ausência de calor humano e indolência. Quais três? Desrespeito, teimosia e más amizades.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar desrespeito, teimosia e más amizades. Quais três? Falta de vergonha, falta de escrúpulos morais e imprudência.

Agora considerem o caso de alguém sem vergonha, sem escrúpulos e que seja imprudente. Sendo imprudente, não pode abandonar o desrespeito, a teimosia e as más amizades. Tendo maus amigos, não pode abandonar a ausência de convicção [crença], a ausência de calor humano e a indolência. Sendo indolente, não pode afastar agitação mental, ausência de autodomínio e imoralidade. Sendo imoral, não pode abandonar o desinteresse em visitar as pessoas nobres, o desinteresse em ouvir os seus ensinamentos ou a mentalidade criticadora. Com esta mentalidade, não pode abandonar a falta de atenção vigilante, de clara compreensão e o aturdimento mental. Com mente aturdida, não pode abandonar a falta de lúcida atenção, o prosseguimento de errados caminhos e a lassidão. Com lassidão, não pode abandonar a crença em [permanente] personalidade, a dúvida cética e a crença em rituais e cerimoniais [como indutores da libertação]. Tendo a dúvida cética, não pode livrar-se do anseio, da aversão e da delusão. E sem abandonar estas três, ele não poderá livrar-se do nascimento, envelhecimento e morte..."
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2016/maio 23-29/sem. 20
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Nascimento, Envelhecimento e Morte" (X. 76-extrato 2)
Tradução para português de Nuno Aragão

"... Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar a atenção não lúcida, o prosseguimento de caminhos errados, e a lassidão. Quais são? Ausência da atenção vigilante, ausência da clara compreensão e aturdimento mental.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar a ausência da atenção vigilante, a ausência da clara compreensão e o aturdimento mental. Quais são? Desinteresse em procurar os "Nobres"*, desinteresse em ouvir os seus ensinamentos e mentalidade criticadora.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar o desinteresse em procurar os "Nobres"*, o desinteresse em ouvir os seus ensinamentos, e a mentalidade criticadora. Quais são? Agitação mental, ausência de autodomínio e imoralidade.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar a agitação mental, ausência de autodomínio, e imoralidade. Quais são? Ausência de convicção [crença], ausência de calor humano e indolência... "

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*- Designação para aqueles que reconhecimente avançaram muito no caminho da evolução espiritual e da sabedoria e amor, concretamente, aqueles que alcançaram o Caminho Superior: a Senda, com os seus quatro patamares ou Graus de Realização de Nirvana.
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2016/maio 16-22/sem. 19
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Nascimento, Envelhecimento e Morte" (X. 76-extrato 1)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se no mundo não existissem três coisas, o Tathagata, o Perfeitamente Iluminado, não apareceria no mundo, nem o ensinamento-disciplina por ele proclamado espraiaria a sua luz sobre o mundo. Quais são essas três coisas? Nascimento, Envelhecimento e Morte. Mas elas existem no mundo e por isso a luz do ensinamento-disciplina do Tathagata é espraiada sobre o mundo.
Sem abandonar três coisas uma pessoa é incapaz de abandonar nascimento, envelhecimento e morte. Quais três? Cobiça, ódio e delusão.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar a cobiça, ódio e delusão. Quais três? Crença em [permanente] personalidade, dúvida cética e crença em rituais e cerimoniais [como indutores da libertação]*.
Sem abandonar três coisas é-se incapaz de abandonar a crença em [permanente] personalidade, a dúvida cética e a crença em rituais e cerimoniais [como indutores da libertação]. Quais três? Atenção não lúcida, prosseguimento de caminhos errados, e lassidão."

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*- A superação destes três "grilhões" traduz a entrada no primeiro grau de realização de nirvana (Entrado-no-Fluxo ou Sotapanna). Mais info, ver em "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Editorial Estampa.
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2016/maio 09-15/sem. 19
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Felicidade e Sofrimento" (X. 65-extrato)
Tradução para português de Nuno Aragão

Numa ocasião, o asceta Samandakani aproximou-se do venerável Sariputta e fez-lhe a pergunta:
-- "O que é, amigo Sariputta, felicidade, e o que é sofrimento?"
-- "Renascer, amigo, implica sofrimento; não renascer implica a felicidade."...
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2016/maio 02-08/sem. 18
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "As Raizes de Tudo" (X. 58)
Tradução para português de Nuno Aragão

"... pode acontecer, monges, que ascetas buscadores de outras crenças vos perguntem: O que é que todas as coisas têm como raiz? Por via de quê ganham elas existência? De onde nascem? Onde convergem? De onde vem o mais profundo de todas as coisas? Qual é o seu líder? O que há de mais elevado em todas as coisas? Qual é a essência de todas as coisas? Onde se fundem todas as coisas? Onde é que elas terminam?
Se isto vos for perguntado, devem responder assim:
-- Todas as coisas têm como raiz a intenção.
-- Todas as coisas ganham existência por via da atenção*.
-- Todas as coisas nascem do contacto**.
-- Todas as coisas convergem nas sensações.
-- O mais profundo de todas as coisas vem da concentração.
-- Todas as coisas têm como líder a atenção vigilante.
-- De todas as coisas o que há de mais elevado é a sabedoria.
-- Em todas as coisas a essência é a libertação.
-- Todas as coisas fundem-se na Imortalidade
-- O término de todas as coisas é Nirvana."

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*- O mundo dos objetos só se torna existente para a consciência pela atenção.
**- No Budismo, o contacto significa a conjunção simultânea de três fatores: objeto, órgão sensorial e consciência da situação.
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2016/abril 25-maio 01/sem. 17
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "A Experiência de Nirvana pela Meditação - I" (X. 6)
Tradução para português de Nuno Aragão

Uma vez o venerável Ananda perguntou ao Mestre:
-- "Pode acontecer que um praticante alcance uma tal concentração que na terra [tomada como objecto] não esteja consciente da terra, ou na água não esteja consciente da água, ou no fogo... no vento... nos planos de espaço infinito... de consciência infinita... de ausência de substância... de nem percepção nem não-percepção não esteja consciente de qualquer destes, nem mesmo esteja consciente deste mundo ou de um mundo para lá deste -- e esteja, contudo, consciente?"
-- "Nesse caso, Ananda, o monge está consciente do seguinte: Isto é a paz, isto é o mais elevado e puro, designadamente, a aquietação de todas as carma-formações, a superação de toda a substância (fonte de renascimento), a eliminação do anseio, o desapego, a cessação, Nirvana. É desta forma que um praticante pode alcançar uma tal concentração mental."
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2016/abril 18-24/sem. 16
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Dez -- "Os Benefícios da Moralidade" (X. 1-Resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

"... portanto, Ananda, os bons hábitos morais têm ausência de remorço como benefício e recompensa; a ausência de remorço tem contentamento como benefício e recompensa; o contentamento tem (bem fundo no âmago) espontânea alegria como benefício e recompensa; a espontânea alegria tem tranquilidade como benefício e recompensa; a tranquilidade tem felicidade como benefício e recompensa; a felicidade tem concentração da mente como benefício e recompensa; a concentração tem efetivo conhecimento e visão como benefício e recompensa; o efetivo conhecimento e visão tem repulsa [abominação] e desapego como benefício e recompensa; a repulsa [abominação] e desapego tem conhecimento e visão da libertação como benefício e recompensa.
Deste modo, Ananda, bons hábitos morais conduzem, passo a passo, ao mais elevado."
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2016/abril 11-17/sem. 15
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Noves -- "Nascido do Almejo" (IX. 23)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há nove coisas enraizadas no almejo. Prestem bem atenção. Que coisas?
-- Devido a almejo, há aplicação; devido à aplicação há aquisição; devido à aquisição há decisão; devido à decisão há desejo e luxúria; devido a desejo e luxúria há tenacidade (egoista); devido à tenacidade (egoista) há sentido de posse; devido ao sentido de posse há avareza; devido à avareza há (preocupação por) proteção; e por conta da proteção há o pegar em paus e armas, há disputa, conflito, dissensão e fala ofensiva, e também calúnia e mentira; estas coisas negativas e perniciosas podem surgir.
São estas as nove coisas nascidas do almejo."
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2016/abril 04-10/sem. 14
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Noves -- "Samiddhi" (IX. 14)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certo dia o venerável Samiddhi foi visitar o venerável Sariputta que o questionou assim:
-- "Qual é, Samiddhi, a base que condiciona/determina as intenções e pensamentos(1) que surgem no homem?" -- "Mente-e-corpo, venerável."(2)
-- "A que se deve a sua variedade?" -- "Aos elementos."(3)
-- "Qual é a sua origem?" -- "O contacto."(4)
-- "Qual é a sua convergência?" -- "A sensação."(5)
-- "O que lhes confere a potência?" -- "A concentração."(6)
-- "Qual é o seu mestre?" -- "A atenção vigilante."
-- "Qual é o seu ponto mais elevado?" -- "A sabedoria."(7)
-- "Qual é a sua natureza?" -- "A libertação."(8)
-- "Onde se fundem?" -- "Na Totalidade."(9)
-- "Bem dito, Samiddhi, bem dito! Respondeste bem às várias questões. Mas não te envaideças!

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(1)pensamentos intencionais ou com um propósito. 
(2)- Mente, i.e., os 4 grupos mentais (sensações, percepções, carma-formações, consciência) e Corpo, i.e., os 4 elementos materiais (compacidade, fluidez, temperatura, movimento) com a corporealidade deles resultante, são as condições para o surgimento do pensamento.
(3)- os 6 objectos básicos, ie, as formas, os sons, os odores, os sabores, a tactilidade, a mente.
(4)- o triplo contacto associado (órgão sensorial-objecto-mente).
(5)- é o valor emocional (agradável, desagradável ou indistinto) junta os vários aspectos de um pensamento.
(6)- no sentido em que a concentração num objecto é o precursor dos pensamentos e produz a sua mais elevada intensidade.
(7)- a sabedoria ligada ao trilhar da Senda (os 4 planos dos `graus de realização de Nirvana´).
(8)- do ponto de vista budista, a questão essencial acerca de um pensamento é se ele é ou não útil para a libertação.
(9)- Nirvana.
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2016/março 28- abril 03/sem. 13
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Oitos -- "Razões para Doar" (VIII. 33)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há oito razões para doar:
-- Doar por afeição; por zanga(1); por estupidez(2); por medo; por se pensar: "estas doações foram feitas anteriormente por meu pai, meu avô e assim sucessivamente pelos seus antecessores -- desse modo, seria demérito meu quebrar esta velha tradição familiar"; por se pensar: "ao fazer esta doação, irei renascer -- após a disfunção deste meu corpo, após a morte -- num domínio de existência feliz, num mundo divino"; por se pensar: "ao fazer esta doação, o meu coração ficará contente, e a felicidade e alegria surgirão em mim"; ou ainda doar porque isso enobrece e embeleza a mente.

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(1)- Lit.: devido a ira. Coment.: irada, a pessoa agarra no que está à mão e rapidamente dá isso.
(2)- Por razões tolas; ou de um modo não inteligente ou não consciente.
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2016/março 21-27/sem. 12
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 3
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Oitos -- "Maneiras de Doar" (VIII. 31)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há oito maneiras de doar: 
-- Doar espontaneamente*, ou doar por receio**; ou por se pensar, `ele também me doou um presente´; ou por se pensar, `ele também me doará um presente´; ou por se pensar que doar algo é bom***; ou por se pensar `eu cozinho, mas eles (sendo monges) não, por isso, não seria próprio eu recusar (uma refeição) àqueles que não podem cozinhar; ou por se pensar, `ao doar um brinde assim, ganharei boa reputação´; ou por se pensar que doar enobrece a mente, embeleza a mente****."

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*- Comentário: Quando, por exemplo, um devoto ao ver um monge, de imediato, sem hesitação lhe oferece um lugar ou uma refeição.
**- Medo de culpa ou de um renascimento infeliz; ou para satisfazer alguem poderoso.
***- Por a doação ser elogiada por Buda e homens sabedores.
****- `Por suavisar o coração do doador e do recebedor´. Algumas destas "maneiras de doar" referem-se à doação de refeição a monges, mas não é exclusivamente assim.
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2016/março 14-20/sem. 11
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Oitos -- "Siha, o General" (VIII. 12 - excerto)
Tradução para português de Nuno Aragão

Um dia o general Siha dirigiu-se a Buda assim:
-- "Senhor, ouvi dizer que o eremita Gotama é um professor da inação, que ensina a sua doutrina tendo em vista (inculcar uma vida de) inação e que nisso treina os seus discípulos. Os que assim falam expressam corretamente as palavras do Bem-Aventurado?"
-- "Na verdade, Siha, num certo sentido, pode ser dito que sou um professor da inação; e noutro sentido, pode ser dito que sou um professor da ação.
Eu ensino (as pessoas) a serem inativas quanto a má conduta em atos, palavras e pensamentos; ensino a inação em relação a um grande número de más e perniciosas coisas (e ideias). Mas também ensino (as pessoas) a serem ativas por meio de boa conduta em atos, palavras e pensamentos.
... Há ainda um outro sentido em que pode ser corretamente dito que sou um nihilista. Pelo facto de eu ensinar a aniquilação da gula, aversão e delusão; eu ensino a aniquilação de um grande número de más e perniciosas coisas (e ideias)."
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2016/março 07-13/sem. 10
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Oitos -- "Vicissitudes da Vida" (VIII. 6 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

Numa ocasião Buda dirigiu-se aos discípulos para dizer que há oito condições mundanas que fazem girar o mundo, sendo que o mundo gira em volta delas: ganho e perda, reputação e depreciação, louvor e culpa, felicidade e tristeza.
Essas oito condições, continuou Buda,  encontram-se tanto na pessoa não instruída como na instruída. Qual é então a diferença entre uma e outra?
-- No primeiro caso, quando vê o ganho sorrir-lhe, não reflete que é impermanente, passível de causar sofrimento ou passível de mudança. A pessoa não conhece a verdadeira natureza do ganho. E o mesmo se passa com as outras condições. Por isso, quando se manifesta alguma das oito condições, a sua mente fica absorvida e dependente, exaltada em caso de ganho, reputação, louvor ou felicidade e destroçada nos seus opostos. Estando tão envolvida em desejar e rejeitar não poderá deixar de experimentar tristeza e lamentação, dor, aflição e desespero, ou seja sofrimento.
Enquanto que a pessoa intruída, quando o ganho, ou qualquer uma das oito condições mundanas, ocorre, reflete que é impermanente, passível de causar sofrimento ou de mudança, e assim não se absorve em exaltação com o surgimento das coisas agradáveis nem fica destroçada com as desagradáveis. Deste modo, a pessoa instruída está livre de experimentar tristeza e lamentação, dor, aflição e desespero, ou seja sofrimento. 
Esta é a diferença, conclui Buda, entre a pessoa não instruída e a pessoa instruída.
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2016/fevereiro 29-março 06/sem. 9
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society 
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Setes -- "A Revelação de Buda" (VII. 79 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

Um dia, o Ven. Upali dirigiu-se a Buda para pedir que lhe explicasse o Ensinamento de forma sucinta. Buda disse-lhe :
-- "Os ensinamentos, Upali, que conduzem a um completo desvio (da agitação mental mundana), conduzem a desprendimento, paz interior e calma, conduzem ao conhecimento direto, iluminação e Nirvana, perante esses ensinamentos podes ter a certeza: `Isto é a Doutrina, isto é a Disciplina, isto é a revelação do Mestre´*.
E, perante os ensinamentos que não conduzem àqueles efeitos, podes ter a certeza: `Isto não é a Doutrina, não é a Disciplina, não é a Revelação do Mestre´."

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*- Buda designava o seu ensinamento por Doutrina-Disciplina (Dhamma-Vinaya em pali, a sua língua natal)
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2016/fevereiro 22-28/sem. 8
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Setes -- "Desenvolvimento Mental" (VII. 67 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

Neste dicurso, Buda refere-se à necessidade de haver pertinácia para serem alcançados os objetivos traçados, dando como imagem o caso da galinha: Suponham, monges, que existem oito, dez, doze ovos de galinha. Contudo, a galinha não se sentou neles o tempo necessário para que os ovos ficassem suficientemente aquecidos e se desenvolvessem o suficiente (para serem chocados). Embora a galinha deseje que os seus pintos quebrem as cascas com o bico e saiam com segurança em liberdade, estes não serão capazes de o fazer. Porquê? Porque a galinha não aqueceu os ovos o tempo suficiente para que ficassem bem aquecidos e desenvolvidos.
E Buda continua: assim é também com um monge [ou meditador] que não se aplicou o tempo suficiente no desenvolvimento meditativo da sua mente; ele pode ter o desejo de ficar livre dos seus defeitos e compulsões, mas isso não acontecerá. Porquê? Porque não desenvolveu suficientemente a sua mente. Não desenvolveu em quê? Nas quatro bases (de aplicação) da atenção vigilante, nos quatro esforços corretos, nas quatro bases de sucesso, nas cinco faculdades espirituais, nos sete fatores de iluminação e no Óctuplo Nobre Caminho.
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2016/fevereiro 15-21/sem. 7
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Setes -- "Amor Universal" (extratos de VII. 58B)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, não receiem praticar ações meritórias! *1 Elas são equivalentes a felicidade. Porque eu sei muito bem *2 que, durante muito tempo, experienciei desejáveis, agradáveis e gratificantes resultados de ações meritórias frequentemente praticadas.
  Durante sete anos cultivei pensamentos de amor universal *3 . Tendo cultivado um coração cheio de amor universal ao longo de sete anos, não retornei a este mundo durante sete éons *4 de `destruições-mundiais´ e `ressurgimentos-mundiais´. *5 Sempre que um mundo era destruído, eu entrava (por meio de renascimento) no domínio dos Deuses Radiantes; e quando o mundo florescia de novo, eu renascia num palácio de Brahma vazio. *6 E lá eu era o Sublime Brahma, o vitorioso invencível, todo-poderoso. E, por trinta e seis vezes fui Sakka, rei dos deuses, e por muitas centenas de vezes fui um rei governante do mundo, um justo e íntegro rei...

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*1- O Comentário distingue 2 tipos de receio: o causado "por conhecimento" e o "receio tímido", sendo o primeiro o medo e emoção sentido pelas divindades por, ao ouvirem as palavras de Buda, compreenderem que as suas divinas felicidade e longevidade estão sujeitas à lei da impermanência; o segundo tipo é o receio habitual quando a vida, a saúde, a felicidade ou a propriedade estão ameaçadas. Quanto às ações meritórias que os monges devem constantemente praticar, tais como, comedimento de corpo e fala, atenção ás regras monásticas, controlo dos sentidos, controlo da mente aquando da vivência em total reclusão (Dhutangas), a prática da meditação e a elevação da energia; tendo praticado assim por longo tempo, o monge não deve temer que essa observância possa prejudicar a sua presente, imediata, felicidade, já que essas ações meritórias trarão a futura felicidade de Nirvana.
*2- Buda faz referência à sua anterior vida como professor religioso, de nome  Sunetta.
*3- Através dos primeiros 3 jhanas.
*4- "este mundo", i.e., este plano sensorial (cinco sentidos), estendido aos primeiros planos dos mundos dos deuses. Um éon é um espaço de tempo com uma inimaginável duração (ver "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa)
*5- Buda aqui refere-se aos dois movimentos do universo: à involução ou contração por um lado; e à evolução ou reflorescimento, por outro.
*6- Ver "Buddhism and the God Idea" (Wheel nº 47, p. 9).
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2016/fevereiro 08-14/sem. 6
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Benefícios da Contemplação da Não-Alma" (VI. 104)
Tradução para português de Nuno Aragão

Continuando a sua reflexão  sobre as "3 Características Universais" (Transitoriedade, Insatisfatoriedade e Insubstancialidade) que constituem aquilo que é comum a tudo o que é manifestado, i.e., a tudo o que existe, Buda aborda agora a forma de lidar com a terceira, a Não-Alma (ausência de personalidade -- substância -- permanente.

Quando um monge vê os seis benefícios, isso deveria ser-lhe suficiente para firmar a perceção da não-alma de todas as formações, sem exceção. Buda diz:

-- [Direi para mim próprio(a)]"Manter-me-ei desprendido de todo o mundo. A noção de "eu" dissipar-se-á. A noção de "meu" dissipar-se-á. Serei dotado do conhecimento acima do comum*. E virei a compreender claramente as causas e os fenómenos consequentes das causas."

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*- O conhecimento supramundano (para mais info ver "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa).
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2016/fevereiro 01-07/sem. 5
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Benefícios da Contemplação da Insatisfatoriedade" (VI. 103)
Tradução para português de Nuno Aragão

Quando um monge vê os seis benefícios, isso deveria ser-lhe suficiente para firmar a perceção da insatisfatoriedade de todas as formações, sem exceção. Buda diz:
-- [Direi para mim próprio(a)] "Relativamente a todas a formações, a perceção de repúdio estará presente em mim, tal como relativamente a um assassino com a espada em riste. A minha mente elevar-se-á de tudo o que é do mundo. Eu chegarei a ver a paz de Nirvana. As propensões negativas terminarão extirpadas. Eu serei alguém que completou a tarefa. E terei servido o Mestre com amor universal."
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2016/janeiro 25-31/sem. 4
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Benefícios da Contemplação da Impermanência" (VI. 102)
Tradução para português de Nuno Aragão

Quando um monge* vê os seis benefícios, isso deveria ser-lhe suficiente para firmar a perceção da impermanência de todas as formações, sem exceção. Buda diz:
--[Direi para mim próprio(a)] "Todas as formações** serão percecionadas por mim como fugazes, transitórias. A minha mente não se deleitará em coisa alguma do mundo. A minha mente emergirá de tudo o que é do mundo. A minha mente inclinar-se-á para Nirvana. Os grilhões serão por mim descartados. E eu serei dotado da suprema reclusão."

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*-Este discurso, como muitos outros de Buda, dirige-se aos monges e não tanto aos laicos (embora estes sejam encorajados a desenvolver a prática do mesmo modo que os monges) porque a prática budista no caso do monge, dedicado a alcançar o sentido mais profundo do ensinamento do mestre, deve ser vista como um treino mental (o qual se torna mais eficaz e produtivo quando se está recolhido em relação à agitação da vida mundana) e não como uma forma de vida. Só os discursos de Buda dirigidos especificamente aos laicos é que indicam formas e orientações a dar ao dia-a-dia mundano, com o enquadramento próprio da vida civil.
**- Formações ou carma-formações são as ações (pensamentos, fala ou físicas) volitivas, as quais constituem algo de novo (algo formado, criado pela pessoa) que é introduzido no ambiente energético em que a pessoa se move e vão, inevitavelmente, gerar a correspondente consequência.
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2016/janeiro 18-24/sem. 3
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Convicção em conformidade com o Dhamma" (VI. 98-101)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Na verdade, monges, um monge que considere

qualquer formação como permanente
qualquer formação como agradável
qualquer coisa como invidualidade permanente
Nirvana como sofrimento,

poderá estar convicto de que o seu entendimento está em conformidade (com o Dhamma)*, porém tal não é possível; e um monge que não esteja convicto de estar em conformidade (com o Dhamma) pode considerar que tem condições para entrar na certeza da correção**, porém tal também não é possível; e um monge que não tenha atingido a certeza da correção, pode considerar que tem condições para alcançar as fruições de Entrado-no Fluxo, Um-Retorno, Sem-retorno ou Estado de Arahant, contudo tal igualmente não é possível."

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*- Dhamma é o ensinamento budista.
**- A expressão certeza da correção refere-se à Senda Supramundana [com os seguintes quatro patamares ou sendas, por ordem de consecução: a senda do `entrado-no fluxo´, a senda do `um-retorno´, a senda do `sem-retorno´, e a senda do `Arahant´ ou Total Iluminação] e, desde logo, à senda do entrado-no-fluxo do qual se diz que `tem a certeza interior (de que irá alcançar o fim dos renascimentos), de estar inabalavelmente destinado à iluminação´. A correção refere-se ao `saber interior´ de a pessoa estar na direção certa, bem como de ter a correta (não distorcida) visão da realidade; a certeza é a de que este caminho (senda) irá de imediato produzir a sua fruição e que, no final, resultará no estado de arahant. [para mais info ver "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa]. 
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2016/janeiro 11-17/sem. 2
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "As Bênçãos do Entrado-no Fluxo" (VI. 97)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há seis bênçãos do alcance da fruição da `entrada-no-fluxo´:
-- A de ser firme no Bom Dhamma*;
-- A de já não poder cair para [renascer em] planos inferiores;
-- A de ter estabelecido um fim para o sofrimento**;
-- A de ser dotado de conhecimento acima do comum***;
-- A de ter claramente compreendido causas e os fenómenos surgidos de causas."

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*- A inabalável certeza interior sobre a verdade do Dhamma. Isto está implícito numa das quatro "características do Entrado-no-fluxo", a perfeita (inalienável) fé no Dhamma.
**- Os sofrimentos de Samsara cessam para ele, no máximo, após sete existências.
***- O conhecimento supramundano, com Nirvana como objeto, o qual não é partilhado pela pessoa comum.
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2016/janeiro 04-10/sem. 1
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Raridades" (VI. 96)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Estas seis coisas, monges, raramente aparecem no mundo:
-- Raramente no mundo aparece o Ser Perfeito (Tathagata)*;
-- Raramente no mundo aparece alguém que ensine o Dhamma-Disciplina proclamado pelo Ser Perfeito;
-- É raro no mundo renascer-se no plano dos Nobres (Santos);
-- É rara no mundo a posse de qualidades inigualáveis (físicas e mentais);
-- É rara no mundo a ausência de estupidez e entorpecimento;
-- É raro no mundo o interesse pelo Bem**."

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* Este  é o termo que Buda usava para se referir aos Budas
** Desejo por coisas ou princípios que sejam edificantes
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2015/dezembro 28-2016/janeiro 03/sem. 53
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Santidade" (VI. 66, 76)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, sem ter abandonado estas seis qualidades, uma pessoa é incapaz de realizar a 'Santidade' (estado de arahant):
-- (a) Rigidez mental, indolência mental, agitação, remorço, falta de fé (convicção), ausência de vigilância (atenção vigilante).
-- (b) Presunção (vaidade), complexo de inferioridade, complexo de superioridade, auto-sobreavaliação, obstinação, servilismo (baixeza)."
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2015/dezembro 21-27/sem. 52
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- "Não-Retorno" (VI. 65)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, sem ter abandonado estas seis qualidades, uma pessoa é incapaz de realizar o fruto de "Não-Retorno"*:
-- Falta de fé (convicção), falta de vergonha moral, falta de temor moral, preguiça, ausência de atenção vigilante, falta de sabedoria."

*- Não-retorno é o terceiro patamar (senda) de Santidade (ou de realização de nirvana), nível a partir do qual não mais poderá surgir um renascimento no plano dos cinco sentidos, sendo o alcance da libertação final realizado num mundo celestial de grande pureza.
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2015/dezembro 14-20/sem. 51
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- Passo a Passo (VI. 50 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Se a árvore não tem ramos e folhas, os rebentos não amadurecem; tão pouco a casca ou a copa.
Do mesmo modo, monges, para quem não tem controlo dos sentidos, a base para a sua moralidade é destruída. Para quem não tem moralidade, a base para a sua correta concentração é destruída. Para quem não tem correta concentração, a base para o seu efetivo conhecimento e visão é destruída. Para quem não tem efetivo conhecimento e visão, a base para a sua repulsa [relativa ao mal] e para o seu desapego é destruída. Para quem não tem repugnância [relativa ao mal] e desapego, a base para o seu conhecimento e visão da libertação é destruída.

E vice-versa, se a árvore tem ramos e folhas intactos... para quem possui repulsa [relativa ao mal] e desapego, isso providenciará a essa pessoa uma base para o conhecimento e visão da libertação."
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2015/dezembro 7-13/sem. 50
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- Manifestando  Santidade (VI. 49 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

Uma vez, no mosteiro de Anathapindika, no norte da Índia, hoje estado de Uttar Pradesh, dois monges, com pequeno intervalo de tempo entre eles, dirigiram-se a Buda, expressando ambos a mesma compreensão, pelas mesmas palavras:
-- "A um monge que tenha consumado a sua tarefa, destruído todas as negatividades da existência, descartado o peso e esteja liberto pelo verdadeiro conhecimento (de Santidade), não surge o pensamento: `não há ninguém melhor do que eu; ninguém que seja igual; ninguém inferior´."
Após aprovação de Buda, ambos se retiraram. 

Logo a seguir, Buda dirigiu-se à comunidade dizendo:
-- "É desta forma, monges, que os nobres discípulos manifestam o seu mais elevado conhecimento (de Santidade); o facto é mencionado sem alusão à pessoa [a eles próprios]. Porém há certas pessoas tontas que declaram, numa maneira bastante ligeira, ter alcançado o conhecimento mais elevado."

Não altos, não baixos nem iguais, caracterizam-se a eles próprios os Arahants, os quais, libertos do renascimento viveram a vida santa. Eles seguem através da vida com todas as amarras vencidas.
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Nota ABT: Na Iluminação há o conhecimento inabalável da Cessação da individualidade (anatta ou Não-Alma), há a presença da Totalidade; não há qualquer perceção individualizável (que separa, diferencia), há apenas a Vida Eterna, o Elemento Imortal. O Arahant, o ser que alcançou a Iluminação ainda no decorrer da sua vida material, compatibiliza, até ao fim desta, o saber da Imortalidade com a compreensão da dualidade.
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2015/novembro 30-dezembro 6/sem. 49
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- Eruditos e Meditadores (VI. 46 - resumo)
Tradução para português de Nuno Aragão

Numa ocasião o ven. Maha Cunda, sobre a questão do antagonismo dos pontos de vista, dirigiu-se aos monges dizendo que há monges peritos no Dhamma (Ensinamento) que louvam os seus semelhantes e depreciam os monges que se dedicam à meditação  e vice versa. E acrescentou que assim, ninguém está agradado nem a sua vida conduz ao bem-estar do povo; por isso, monges, para ser alcançada a harmonia, os primeiros devem treinar-se refletindo: "extraordinários homens com experiência pessoal do Elememto Imortal (Nirvana) são raros no mundo" e os segundos devem treinar-se refletindo: "embora sejamos meditadores, louvaremos os monges peritos no Dhamma porque são raros no mundo os homens extrordinários que pela sua sabedoria podem compreender claramente um assunto difícil". 
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2015/novembro 23-29/sem. 48
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- O Ensinamento Visível (VI. 47)
Tradução para português de Nuno Aragão

Uma vez, o asceta Moliya Sivaka dirigiu-se ao Bem-Aventurado assim:
-- Senhor, diz-se que `o Dhamma [Ensinamento] é visível aqui e agora´. Até que ponto, Senhor, é ele visível aqui e agora, com resultado imediato, convidando a vir e ver, orientando na boa direção e diretamente experienciável pelo sábio?
-- Sivaka, vou responder-te com uma pergunta. Responde como entenderes. Quando houver cobiça em ti, tu saberás que `há cobiça em mim´? E se não houver, saberás que `não há cobiça em mim´?
-- Sim, senhor, sabê-lo-ei.
-- Então, se sabes que a cobiça está presente quando ela está em ti; e se, quando ela está ausente, sabes que não nenhuma em ti -- essa é a forma como o Dhamma está visível aqui e agora.

O mesmo raciocínio aplicou Buda para o caso da aversão e da delusão*.
E concluiu: É assim que o Dhamma é visível aqui e agora, de resultado imediato, convidando a vir e ver, orientando na boa direção e diretamente experienciável pelo sábio.

*- De acordo com Buda, cobiça, aversão e delusão são as três raizes de todo o mal existente no mundo (tudo o que é negativo, pernicioso)
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2015/novembro 016-22/sem. 47
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- Causas para origem do Carma(VI. 39)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há três causas para a origem de ações (carma):
-- Apego é uma causa para origem de ações; ódio é uma causa para origem de ações; delusão é uma causa para origem de ações.
Do apego não nasce o não-apego. Do ódio não nasce o não-ódio. Da delusão não nasce a não-delusão.
Não é a partir de ações nascidas do apego, do ódio ou da delusão, que ocorre o surgimento dos seres celestiais (deva), humanos ou quaisquer outras criaturas com formas felizes de existência, mas antes ocorre o surgimento das criaturas dos infernos, do reino animal, do domínio dos fantasmas e todas as outras com forma de existência miserável.
Estas são as três causas que dão origem às ações perniciosas.

Há (outras) três causas para a origem de ações.
Não-apego, não ódio e não-delusão são causas para a origem de ações (edificantes).
Não é a partir de ações nascidas do não-apego, do não-ódio ou da não-delusão, que ocorre o surgimento das criaturas dos infernos, do reino animal, do domínio dos fantasmas ou de todas as outras com forma de existência miserável, mas antes ocorre o surgimento dos seres celestiais (deva), humanos e todos os outros com formas de existência felizes.
Estas são as três causas que dão origem às ações edificantes."
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2014/outubro 06-12/sem. 41
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Seis -- Desejos Sensoriais (VI. 23)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, `perigo´ é um nome para desejos sensoriais, ´dor´ é um nome para desejos sensoriais, `doença´ é um nome para desejos sensoriais, `tumor´ ... `grilhão´... `pântano´ é um nome para desejos sensoriais.
E por que razão, monges, é o `perigo´ um nome para desejos sensoriais?  
-- Inflamada por paixões sensuais e escravizada pelo desejo sensual, uma pessoa não está livre dos perigos deste mundo nem do próximo mundo."
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2014/setembro 29-outubro 05/sem. 40
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Palavras Bem Faladas (V. 198)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Se um discurso tem cinco marcas, monges, é bem falado, não mal falado, é irrepreensível e acima de reprovação. Quais são essas cinco marcas?

-- As cinco marcas do [bom] discurso são: ser oportuno, verdadeiro, sereno, bondoso e ter um propósito.
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2014/setembro 22-28/sem. 39
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Incorreto Modo de Vida (V. 177)
Tradução para português de Nuno Aragão


"Monges, estes cinco ofícios não devem ser assumidos por um seguidor laico: tráfico de armas, tráfico de seres humanos, comercialização de carne, comercialização de intoxicantes e comercialização de venenos."(1)

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(1)- Coment.: "Sobre estes comércios, não só não nos devemos comprometer com eles, como não devemos causar que outros se comprometam." A abstenção destas cinco ocupações corresponde à prática do Correto Modo de Vida, o quinto fator do Caminho do Meio (Óctuplo Nobre caminho). 
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2014/setembro 15-21/sem. 38 
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Como Remover o Rancor (V. 161)
Tradução para português de Nuno Aragão


"Monges, há cinco modos de remover o rancorAtravés deles, qualquer rancor que possa ter surgido num monge pode ser removido. Quais cinco?

Se o rancor surge em relação a uma pessoa, então deve cultivar-se o Amor Universal em relação a ela... ou a compaixão... ou a equanimidade(1). Desse modo pode remover-se o rancor em relação a essa pessoa.
Ou, podemos não dar atenção e não pensar na pessoa. Desse modo pode remover-se o rancor.
Ou também, pode aplicar-se à pessoa a realidade da responsabilidade do carma: `Este indivíduo é dono (responsável) das suas ações, herdeiro das suas ações; essas ações são a origem (da sua pessoa), família e dependência. Daquilo que ele fizer, bom ou mau, ele será o herdeiro´. Também desse modo se pode remover o rancor em relação à pessoa.

Estas são os cinco modos de se livrar do rancor. Através deles, qualquer rancor que possa ter surgido num monge pode ser removido.

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(1)- Estes são o primeiro, segundo e quarto Estados Sublimes (brahma-vihara). O terceiro, a Alegria Altruísta, não é aqui mencionado por, segundo o Comentário, ser difícil de praticar em relação àqueles por quem se sente rancor.
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2014/setembro 08-14/sem. 37
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos --A Forma Correta de Ensinar o Dhamma (V. 159)
Tradução para português de Nuno Aragão

Numa ocasião em que o Bem-Aventurado residia no mosteiro de Ghosita, em Kosambi, o venerável Udayi encontrava-se lá, sentado no meio de um grande número de seguidores laicos, a ensinar o Dhamma. Notando isso, o venerável Ananda foi até junto do Bem-Aventurado para lho transmitir. E o Mestre disse:
"Não é fácil, Ananda, ensinar o Dhamma a outros. Para isso, a pessoa deve estabelecer, em si própria, cinco princípios. Quais cinco?
-- `Farei um discurso gradual´; é dessa forma que o Dhamma deve ser ensinado a outros.
-- `Farei um discurso bem fundamentado´; é dessa forma que o Dhamma deve ser ensinado a outros.
-- `Falarei movido por altruísmo´(1); é dessa forma que o Dhamma deve ser ensinado a outros.
-- `Falarei sem ser movido por qualquer vantagem mundana´; é dessa forma que o Dhamma deve ser ensinado a outros.
-- `Falarei sem aludir a mim próprio ou a outros´; é dessa forma que o Dhamma deve ser ensinado a outros.

De facto, Ananda, não é fácil ensinar o Dhamma a outros. Ao fazê-lo a pessoa deve estabelecer, em si própria, estes cinco princípios."

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(1)- Com.: "Movido pela aspiração: ´libertarei das suas dificuldades aqueles seres que estão em grande aflição´."
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2014/setembro 01-07/sem. 36
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- O Repulsivo e o Não-Repulsivo (V. 144)
Tradução para português de Nuno Aragão

No bosque Tikandaki, perto de Saketa, falou assim o Bem-Aventurado: "Monges, é bom para um monge

1. Anuir, de tempos a tempos, a descortinar o repulsivo no não-repulsivo(1);
2. Anuir, de tempos a tempos, a descortinar o não-repulsivo no repulsivo(2);
3. Anuir, de tempos a tempos, a descortinar o repulsivo no não-repulsivo bem como no repulsivo(3);
4. Anuir, de tempos a tempos, a descortinar o não-repulsivo no repulsivo bem como no não-repulsivo(4);
5. Rejeitar tanto o repulsivo como o não-repulsivo (aspetos de um objeto) e permanecer em equanimidade, atento e com clara compreensão(5).

-- Por que razão deve um monge anuir a descortinar o repulsivo no não-repulsivo? (Ele deve fazê-lo com o pensamento: que não se manifeste cobiça em mim por objetos atrativos!)

-- Por que razão deve um monge anuir a descortinar o não-repulsivo no repulsivo? (Ele deve fazê-lo com o pensamento: que não se manifeste aversão (ódio) em mim por objetos causadores de aversão!)
-- Por que razão deve um monge anuir a descortinar o repulsivo no não-repulsivo bem como no repulsivo? (Ele deve fazê-lo com o pensamento: que não se manifeste cobiça em mim por objetos atrativos e que não se manifeste aversão em mim por objetos causadores de aversão!)
-- Por que razão deve um monge anuir a descortinar o não-repulsivo no repulsivo bem como no não-repulsivo? (Ele deve fazê-lo com o pensamento: que não se manifeste aversão em mim por objetos causadores de aversão nem cobiça por objetos atrativos!)
-- E por que razão deve ele rejeitar tanto o repulsivo como o não-repulsivo (aspetos de um objeto) e permanecer em equanimidade, atento e com clara compreensão? (Ele deve fazê-lo com o pensamento: que nunca, em qualquer situação, seja onde for e seja de que extensão for, se manifeste em mim cobiça por objetos atrativos, nem se manifeste em mim aversão por objetos causadores de aversão, nem se manifeste em mim delusão por objetos passíveis de causar delusão(5a)."

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(1)- O não-repulsivo pode referir-se a pessoas ou coisas tanto atrativas como indiferentes. "No caso de um objeto agradável, ele, ou o permeia com (o pensamento meditativo de) impureza ou o vê como impermanente".
(2)- "No caso de um objeto desagradável, ele, ou o impregna com amor universal ou o vê como uma aglomeração de elementos impessoais."
(3)- "Ele permeia, tanto os objetos agradáveis como os desagradáveis, com o pensamento de impureza e vê-os como impermanentes. Deste modo ele apercebe ambos como repulsivos."
(4)- "Ele impregna, tanto os objetos desagradáveis como os agradáveis, com amor universal e vê-os como elementos impessoais. Deste modo, ele apercebe ambos como repulsivos."
(5)- "Aqui, um monge tendo visto a forma com os seus olhos, não fica nem contente nem triste, antes permanece em equanimidade, atento e com clara compreensão. Tendo ouvido um som... cheirado um odor... saboreado um sabor... sentido um toque... tido uma ideia... , não fica nem contente nem triste, antes permanece em equanimidade, atento e com clara compreensão. Deste modo, ele evita quer o aspeto repulsivo quer o não-repulsivo".
(5a)- Coment.: Neste Sutta é de visão interior (insight) de que se fala por meio de cinco modos. Isto pode ser praticado por quem se dedique à meditação vipassana; também um eremita de grande erudição e apurada inteligência pode praticá-lo; bem como um Entrado-no-Fluxo, um Um-Retorno, um Sem-retorno e, claro, um libertado Arahant.
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2014/agosto 25-31/sem. 35
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Cinco Coisas Desejáveis (V. 43)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado falou assim ao chefe de família Anathapindika:
-- "Existem, ó chefe de família, cinco cisas agradáveis e apetitosas que são raras no mundo. Quais são? Vida longa, beleza, felicidade, celebridade e renascimento num céu. Porém, eu não ensino que essas coisas sejam para ser obtidas através da oração ou de votos. Se elas pudessem ser obtidas por orações ou por votos, quem o não faria?

Para um nobre discípulo, que aspire a uma vida longa, não é apropriado orar por longa vida nem deliciar-se em fazê-lo. Em vez disso, ele deve ter um curso de vida(1) que seja conducente à longevidade. Seguindo um tal curso, ele obterá vida longa, seja ela divina ou humana.

Para um nobre discípulo, que aspire a beleza... felicidade... celebridade... renascimento num céu, não é apropriado orar por elas nem deliciar-se em fazê-lo. Em vez disso, ele deve ter um curso de vida que seja conducente à longevidade... beleza... felicidade... celebridade... renascimento num céu. Seguindo um tal curso, ele obterá vida longa, beleza, felicidade, celebridade e renascimento num céu."

-----------------------------
(1)- Ou seja, um caminho de conduta meritória, pela prática da tolerância, da virtude e da meditação.
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2014/agosto 18-24/sem. 34
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Os Benefícios da Dádiva (V. 31)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado estava a residir no Bosque Jeta, Savatthi, no mosteiro de Anathapindika. Então, a princesa Sumana veio ver o Bem-Aventurado, trazendo um séquito de quinhentas damas da corte, em quinhentos carros. Após chegar, saudou o Mestre, sentou-se a seu lado e disse:

-- "Senhor, admitamos que tinha dois discípulos iguais em fé, em virtude e em sabedoria. Mas um deles praticava a dádiva e o outro não. E que os dois, após a dissolução dos seus corpos, após a morte, teriam renascido numa condição feliz, num mundo celestial. Tendo-se assim tornado divindades, Senhor, haveria alguma distinção ou diferença, entre eles?"
-- "Sim, Sumana, haveria, disse o Bem-Aventurado. Aquele que praticava a dádiva, ao tornar-se divindade, superaria o não dadivoso em cinco aspetos: na extensão da vida divina, na beleza divina, na felicidade divina, na celebridade divina e no poder divino."
-- "E, Senhor, se ambos falecessem nesse mundo e retornassem a este nosso mundo, haveria também alguma diferença entre eles, agora de novo humanos?"
-- "Sim, Sumana, haveria, disse o Bem-Aventurado. Aquele que praticava a dádiva, ao tornar-se um homem, superaria o não dadivoso em cinco aspetos: na extensão da vida humana, na beleza, na felicidade, na celebridade e no poder."
-- "E, senhor, se ambos seguissem em frente para a condição sem lar da monasticidade, haveria alguma distinção ou diferença, entre eles, agora monges?"
-- "Sim, Sumana, haveriadisse o Bem-Aventurado. Aquele que praticava a dádiva, ao tornar-se monge, superaria o não dadivoso em cinco aspetos: seria frequentemente solicitado para aceitar mantos, e seria raro não ser solicitado; seria frequentemente solicitado a aceitar dádivas de comida... um lugar para residir... e medicina, e seria raro não ser solicitado. Além dissso, os seus companheiros da vida santa em conjunto com os quais viveria, seriam habitualmente amistosos para ele em atos, palavras e pensamentos; seria raro que eles não fossem amistosos; seriam agradáveis quase todos os presentes que receberiam, e seria raro que não o fossem."
-- "E, Senhor, se ambos atingissem a Santidade*, continuaria a haver alguma diferença entre eles?"
-- "Nesse caso, Sumana, afirmo que não haveria qualquer diferença entre uma libertação e a outra."
-- "É maravilhoso, Senhor, é excelente! Há, na verdade, boas razões para praticar a dádiva, há boas razões para ações meritórias, se elas são de ajuda como humanos, de ajuda como monges."

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NT*- O grau de "Arahant" ou "Totalmente Iluminado".
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2014/agosto 11-17/sem. 33
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- As Cinco Ajudas (V. 25)
Tradução para português de Nuno Aragão

"A correta compreensão, monges, se for ajudada por cinco coisas, tem a "libertação da mente"(1) como seu fruto é recompensada pelo fruto da libertação da mente: tem a libertação através da sabedoria (2) como fruto e é recompensada pelo fruto da libertação através da sabedoria. Quais são essas cinco coisas?

Aqui, monges, a correta compreensão é ajudada por virtude, por extensiva aprendizagem, por debate (sobre o que foi aprendido), por tranquilidade e por visão interior*. (3)
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(1)- A libertação da mente é a concentração que está presente na consecução e fruição das sendas da santidade (ariya-magga-phala).
(2)- A libertação através da sabedoria é a sabedoria que corresponde à quarta fruição, a da Santidade (arahatta-phala).
(3)- Esta quíntupla ajuda à correta compreensão é, no Comentário, comparada ao crescimento da árvore da manga:
-- "A correta compreensão através da visão interior (vipassana-sammaditthi) compara com o ato de plantar uma semente de manga doce. A ajuda por virtude é como fazer uma cerca (de terra à volta do local da plantação). A ajuda através da aprendizagem é como polvilhar a semente com água. O debate (o Ensinamento) é como o lavar das raízes. A ajuda através da meditação-da-tranquilidade (samatha), pela qual os obstáculos para o jhana e `insight´ são afastados, é como a remoção dos vermes, etc. A ajuda da poderosa visão interior é como ficar livre da germinação de teias de aranha. Tal como uma mangueira que tenha sido cuidada desta maneira crescerá depressa e produzirá bons e muitos frutos, também a correta compreensão básica, se receber essa quíntupla ajuda, crescerá rapidamente na direção da senda (da Santidade) e terá o fruto das duas libertações**."


Sub-Coment.: "Para alguém que, com virtude bem purificada, se devote ao tema da meditação, o estudo de um conveniente Ensinamento é desejável; e do mesmo modo é o debate sobre o significado preciso daquilo que foi estudado. Se, desse modo, o tema da meditação tiver sido clarificado, aparecerá a tranquilidade (jhana). Se alguém, assim concentrado, desenvolver a meditação vipassana, a sua visão interior tornar-se-á perfeita, e perfeita visão interior irá determinar o crescimento da correta compreensão correspondente às sendas (do `Entrado-no-Fluxo, etc.). Deste modo, uma visível ajuda é dada à correta compreensão pela sucessão destes fatores de ajuda."

NT*- Visão direta e penetrante (em inglês, `insight´).
NT**- A primeira libertação resultante do entendimento (visão límpida e abrangente) e a segunda libertação resultante da interiorização e consequente transposição para a prática, de forma pura, natural e espontânea; de saber que, só após esta última vertente, é possível a fruição dos benefícios (as bênçãos) do caminho, da senda específica que a pessoa trilha.
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2014/agosto 04-10/sem. 32
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- As Fundações dos Cinco Poderes 
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há estes cinco poderes, monges: fé, esforço*, atenção**, concentração e sabedoria.

-- Onde pode ser visto o poder da fé? Nas quatro características do "Entrado-no-Fluxo".(1)
-- Onde pode ser visto o poder do esforço? Nos quatro Corretos Esforços.(2)
-- Onde pode ser visto o poder da atenção? Nas quatro Bases*** da Atenção Vigilante.(3)
-- Onde pode ser visto o poder da concentração? Nas quatro absorções meditativas. (4)
-- Onde pode ser visto o poder da sabedoria? Nas quatro Sublimes Verdades." (5)

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(1)- São: inabalável fé em Buda, Dhamma e Sangha, associada a uma perfeita, inquebrantável, moralidade.
(2)- Os esforços de evitar o mal e de rechaçar os estados demeritórios, e os de produzir o bem e de aperfeiçoar os estados meritórios.
(3)- Atenção ao Corpo, Sensações, Estados Mentais e Objetos Mentais. 
(4)- Os Jhanas.
(5)- A facticidade do sofrimento, a sua origem, a sua cessação e o caminho para a sua cessação.
NT*- Esforço, i.e., empenho, determinação.
NT**- Atenção Vigilante, i.e., uma atenção natural, pura, lúcida e desprendida.
NT***- "Bases" ou campos de aplicação.
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2014/julho 28- agosto 03/sem. 31
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- os Cinco Poderes (V. 14)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há cinco (outros) poderes: os poderes da fé, do empenho, da atenção, da concentração e da sabedoria(1).

O que é o poder da fé? (resposta no texto da semana 28).
O que é o poder do empenho? (resposta no texto da semana 28).
O que é o poder da atenção? Aqui, monges, um nobre discípulo está atento; ele está equipado com as mais apuradas atenção vigilante e circunspeção; ele recorda-se bem e mantém em mente mesmo aquilo que foi dito há muito tempo atrás.
O que é o poder da concentração? Aqui, monges, um nobre discípulo... entra e instala-se na primeira... segunda... terceira... quarta absorção meditativa (jhana)...
O que é o poder da sabedoria? (resposta no texto da semana 28).

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(1)- Os cinco poderes (bala) são a intensificação das cinco qualidades idênticas (indriya). Enquanto poderes, são "inabaláveis por parte dos seus opostos".
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2014/julho 21-27/sem. 30
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- A metáfora do Jovem (V. 7)
Tradução para português de Nuno Aragão

"De um modo geral, monges, os seres veem os prazeres sensoriais como agradáveis. Então, se um jovem de boas famílias rejeitar a foice e o carrinho(1), e seguir em frente para uma vida sem lar (de um monge), poder-se-á, com justeza, admitir que ele fez isso devido a fé (convicção). E porquê (pode isso ser assumido)? Porque para o jovem, os prazeres sensoriais estão facilmente acessíveis. Sejam de que tipo forem, grosseiros, medianos ou refinados, eles contam como `prazeres sensoriais´.

Suponhamos agora, monges, uma criança de tenra idade deitada de costas. E que, devido a negligência da ama, a criança pôs um pequeno galho ou um fragmento de vidro na boca. Então, a ama, muito rapidamente, iria ter em conta o que acontecera e muito rapidamente removeria o objeto. Porém, se não o conseguisse remover rapidamente, ela seguraria a cabeça da criança com a mão direita e, dobrando um dedo, extrairia o objeto, mesmo que tivesse que provocar algum sangue. E porquê? Ainda que magoando certamente  a criança, e eu não o nego, a ama teria de agir desse modo, por desejar o melhor para a criança e se preocupar com o seu bem-estar, por compaixão. Contudo, quando a criança tiver crescido e for suficientemente cuidadosa, a ama pode deixar de se preocupar com ela, sabendo que então ela já pode cuidar de si própria e não mais ficará desprotegida.

Do mesmo modo, monges, na medida em que um monge ainda não demonstrou fé nas coisas meritórias e edificantes, ainda não demonstrou vergonha e temor ético, empenho e sabedoria no tocante às coisas meritórias e edificantes, nessa mesma medida, tenho eu de tomar conta dele. Porém, quando ele o demonstrar (em todas estas vertentes), eu poderei ficar descansado em relação a esse monge, sabendo que já pode cuidar dele próprio e não mais ficará desprotegido(2).

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(1)- A foice para cortar a relva e o carrinho para a transportar.
(2)- De acordo com o Comentário, isto refere-se ao "Entrado-no-Fluxo" (sotapanna).
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2014/julho 14-20/sem. 29
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Condições para o Bem e para o Mal (V. 6)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Quando, monges, a  [convicção pura] em coisas boas e benéficas está presente, aquilo que é mau e prejudicial não pode entrar. Mas quando a crença (no bem) desaparece e a descrença no bem ganha posição e predomina, então o que é prejudicial irá entrar(1).

Quando, monges, a vergonha* em relação às coisas boas e benéficas está presente, aquilo que é mau e prejudicial não pode entrar. Mas quando essa vergonha desaparece e a sem vergonha ganha posição e predomina, então o que é prejudicial irá entrar.

Quando, monges, o temor ético relativo a coisas boas e benéficas está presente, aquilo que é mau e prejudicial não pode entrar. Mas quando esse temor ético desaparece e a falta de temor ético (insensibilidade) ganha posição e predomina, então o que é prejudicial irá entrar.

Quando, monges, a empenho em relação a coisas boas e benéficas está presente, aquilo que é mau e prejudicial não pode entrar. Mas quando esse empenho desaparece e a negligência (em relação ao bem) ganha posição e predomina, então o que é (mau e) prejudicial irá entrar.

Quando, monges, a sabedoria relativamente às coisas boas e benéficas está presente, aquilo que é mau e prejudicial não pode entrar. Mas quando essa sabedoria desaparece e a tolice ganha posição e predomina, então o que é prejudicial irá entrar(2)."

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(1)- A palavra usada por Buda é samapatti e tem aqui, provavelmente, a (rara) significação de "entrada". Se for tomada no seu sentido mais comum, de "completa consecução", esta passagem poderia ser livremente traduzida por "o demeritório não ganhará poder".
(2)- Enquanto que no texto anterior estas cinco qualidades foram tratadas como poderes pertencentes aos primeiros sete patamares de santidade, aqui, essas mesmas qualidades são mostradas na sua significação geral enquanto capazes de protegerem da intrusão de estados mentais prejudiciais. Isto leva-nos ao facto encorajador de as qualidades morais, de nível médio, carregarem nelas próprias a raiz do mais elevado desenvolvimento. Noutro texto (V, 4), é dito que a posse destas cinco qualidades conduz ao renascimento num mundo celestial, enquanto que a ausência delas causa renascimento nos planos inferiores [ao humano].

NT*- Vergonha e pesar surgidos quando se comete um erro, i.e., quando não se cumpre o preceituado.
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2014/julho 07-13/sem. 28
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology 2
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Cincos -- Os Poderes do Homem em Alto Treino (V. 2)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há cinco poderes de quem está em Alto Treino(1)*. Quais cinco?
Os poderes do buscador em matéria de fé, vergonha, temor ético, empenho e sabedoria.

O que é o poder da fé? Aqui, monges, um nobre discípulo, tendo fé acredita na Iluminação do Ser Perfeito (Tathagata) assim: `Este, na verdade, é o Ser abençoado, sagrado, totalmente iluminado, dotado da visão clara e da conduta pura, sublime, o conhecedor dos mundos, o incomparável líder de homens a serem apaziguados, o professor de deuses e homens, iluminado e abençoado.´

O que é o poder da vergonha? Aqui, monges, um nobre discípulo, tendo vergonha, sente-se envergonhado com o comportamento pernicioso em ações, palavras e pensamentos; sente vergonha de qualquer coisa que seja incorreta ou perniciosa(2).

O que é o poder do temor ético? Aqui, monges, um nobre discípulo tendo temor ético, receia o comportamento pernicioso em ações, palavras e pensamentos; receia qualquer coisa que seja incorreta ou perniciosa(2).

O que é o poder do empenho? Aqui, monges, um nobre discípulo vive com empenho aplicado ao abandono de tudo o que seja pernicioso e à aquisição de tudo o que seja edificante; é firme e forte nos seus esforços, e não foge à sua tarefa de fazer aquilo que é edificante.

O que é o poder da sabedoria? Aqui, monges, um nobre discípulo, sendo sabedor, está imbuído daquela sabedoria que enxerga a emergência e a queda (de fenómenos), a qual é nobre e penetrativa, e conduz à completa destruição da insatisfação(3).

Estes são, monges, os cinco poderes daqueles que estão em Alto Treino.

Então, deveis treinar-vos assim: ´Nós iremos adquirir os poderes da fé, da vergonha, do temor ético, do empenho e da sabedoria, possuídos por aqueles que estão em Alto Treino! Assim deveis vós treinar-vos´!"

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(1)- Sekha-bala -- Um sekha (alguém em treino, ou um buscador) é alguém que, na sua demanda pelos 3 tipos de treino (sikkha), em virtude, meditação e sabedoria, alcançou uma das quatro Sendas Supramundanas (magga, i.e., o caminho de Entrado-no-Fluxo, etc) ou uma das três primeiras fruições (phala), correspondentes a essas sendas. Aquele que atingiu a quarta fruição, a da Santidade (arahatta) é chamado Asekha, i.e., aquele que superou a necessidade de mais treino.
(2)- Enquanto que a vergonha é motivada por autorespeito e pelo olhar para dentro, o temor ético olha para fora, sendo o receio de consequências como punição [cármica], censura ou má reputação.
(3)- O texto V,12 diz; `Destes 5 poderes de alguém em Alto Treino, este é o mais elevado, este é o que mantém os outros unidos, designadamente, o poder da sabedoria´."
NT*- Para mais esclarecimentos, o leitor poderá consultar o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa.
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2014/junho 30-julho 06/sem. 27
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Desenvolvimento da Sabedoria (IV. 246)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, estas quatro coisas são conducentes ao desenvolvimento da sabedoria. Quais quatro?
-- Associação com pessoas honradas*, 

-- Audição do Bom Ensinamento, 
-- Reflexão sábia, 
-- Condução da vida de acordo com o Dhamma(1).

Estas quatro coisas são (também) uma grande ajuda para quem alcançou o plano humano(2)."

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(1)- Estes são os quatro Fatores Condicionantes do "Entrado-no-Fluxo" (em Pali, Sotapanna)
(2)- Na versão birmaneza do texto, isto surge como um Discurso separado, elaborado como o precedente. É significativo que estas quatro Condições do Entrado-no-Fluxo sejam vistas como úteis para a preservação de um real estatuto humano.
NT*- Íntegras.
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2014/junho 23-29/sem. 26
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Como Julgar o Caráter de Uma Pessoa (IV. 192)
Tradução para português de Nuno Aragão

Parte 1
"Monges, quatro facetas (de uma pessoa) podem ser conhecidas a partir de quatro circunstâncias. Quais quatro?
Ao viver-se em conjunto (com uma pessoa), a sua virtude pode ser conhecida; mas isso, só após um longo período, não ocasionalmente; e por meio de atenção cuidada, não com pouca atenção; e por alguém com sageza, não ínscio.

Ao lidar-se (com uma pessoa), a sua integridade pode ser conhecida; mas isso, só após um longo período, não ocasionalmente; e por meio de atenção cuidada, não com pouca atenção; e por alguém com sageza, não ínscio.


Na desgraça, a firmeza de uma pessoa pode ser conhecida; mas isso, só após um longo período, não ocasionalmente; e por meio de atenção cuidada, não com pouca atenção; e por alguém com sageza, não ínscio.

Na conversação, a sabedoria de uma pessoa pode ser conhecida; mas isso, só após um longo período, não ocasionalmente; e por meio de atenção cuidada, não com pouca atenção; e por alguém com sageza, não ínscio.

o  -  o  -  o
Diz-se que "Ao viver-se em conjunto com uma pessoa... ". Com base em quê, se diz isso?
Ao viver-se em conjunto com uma pessoa, acaba-se por conhecê-la assim: `Durante muito tempo, as ações desta nobre(1) pessoa, mostraram fragilidades(2), defeitos, contaminações, máculas, no que respeita aos aspetos morais; moralmente, não foi consistente nas suas ações e comportamentos. Então, é uma pessoa imoral, não virtuosa.

Ou, noutro caso, ao viver-se em conjunto com uma pessoa, acaba-se por conhecê-la assim: `durante muito tempo, as ações desta nobre pessoa, não mostraram fragilidades, defeitos, contaminações ou máculas, no que respeita aos aspetos morais; moralmente, é consistente nas suas ações e comportamentos. Então, é  uma pessoa virtuosa, não imoral.


É com base nisto que se diz: `Por se viver em conjunto com uma pessoa, a sua virtude pode ser conhecida... ".

o  -  o  -  o
E mais se diz que `Por se lidar(3) com uma pessoa, a sua integridade(4) pode ser conhecida... ´. Com base em quê, se diz isso?
Ao lidar-se com uma pessoa, acaba-se por conhecê-la assim: `Esta nobre pessoa comporta-se(5) de um modo quando se relaciona com uma só pessoa, mas de um modo diferente quando se relaciona com duas, três ou mais pessoas. O seu comportamento no primeiro caso afasta-se daquele que tem no segundo caso. O comportamento desta nobre pessoa não é transparente, ela tem um comportamento desonesto(6)´.

Ou, noutro caso, ao lidar-se com uma pessoa, acaba-se por conhecê-la assim: `esta nobre pessoa comporta-se do mesmo modo quando se relaciona com uma só pessoa ou quando se relaciona com duas, três ou mais pessoas. O seu comportamento no primeiro caso não se afasta daquele que tem no segundo caso. O comportamento desta nobre pessoa é transparente, ela tem um comportamento honesto´.


É com base nisto que se diz: `Ao lidar-se com uma pessoa, a sua integridade pode ser conhecida... ".
o  -  o  -  o
Parte 2
E mais se diz que "Na desgraça, a firmeza(7) de uma pessoa pode ser conhecida. Com base em quê, se diz isso?
Temos o caso de uma pessoa atingida pela perda de familiares, pela perda de riqueza ou saúde, mas que não reflete assim: `tal é a natureza da vida neste mundo, tal é a natureza do desabrochamento da existência individual, que as oito vicissitudes mundiais mantêm o mundo em movimento e o mundo mantém as oito vicissitudes mundiais em movimento, designadamente, ganho e perda, celebridade e má reputação, louvor e censura, felicidade e infelicidade´. 
(Por não ponderar nisso,) esta pessoa sofre e preocupa-se, lamenta-se e bate no peito, e fica profundamente perturbada quando é atingida pela perda de familiares, perda de riqueza ou saúde.

E temos outro caso em que uma pessoa é atingida pela perda de familiares, riqueza ou saúde, mas reflete assim: `tal é a natureza da vida neste mundo, tal é a natureza do desabrochamento da existência individual, em que as oito vicissitudes mundiais mantêm o mundo em movimento e o mundo mantém as oito vicissitudes mundiais em movimento, designadamente: ganho e perda, celebridade e má reputação, louvor e censura, felicidade e infelicidade´.

(Ponderando nisso,) esta pessoa não sofre nem se preocupa, não se lamenta nem bate no peito, não fica perturbada quando atingida pela perda de familiares, perda de riqueza ou saúde.

É com base nisto que se diz: `Na desgraça, a firmeza de uma pessoa pode ser conhecida´.
o  -  o  -  o
E mais se diz que `Na conversação, a sabedoria de uma pessoa pode ser conhecida...´. Com base em quê, se diz isso?
Quando se conversa com uma pessoa, fica-se a saber: `Pelo modo como este nobre examina, formula e introduz uma questão, trata-se de uma pessoa pouco inteligente. Porquê? Ele não profere palavras profundas, apaziguadoras, sublimes, para lá da formulação comum, subtis, inteligíveis ao sabedor. Quando fala do Dhamma*, não é capaz de explicar o seu significado, seja de forma resumida, seja em pormenor. É uma pessoa pouco inteligente e não sabedora.´

Tal como, monges, um homem com boa visão, de pé na margem de um lago, ao ver um pequeno peixe a emergir, pensa: `A julgar por esta emergência, pelas ondulações por ela causada e pela sua velocidade, trata-se de um peixe pequeno, não de um grande´ -- do mesmo modo, quando em conversa com uma pessoa, fica-se a saber: `... Esta pessoa não é inteligente, não é sabedora´.

Ou, noutro caso, ao conversar-se com uma pessoa, fica-se a saber: `Pelo modo como este nobre examina, formula e introduz uma questão, trata-se de uma pessoa sabedora, não pouco inteligente. Porquê? Ele profere palavras profundas, apaziguadoras, sublimes, para lá da formulação comum, subtis, inteligíveis ao sabedor. Quando fala do Dhamma*, é capaz de explicar o seu significado, seja de forma resumida, seja em pormenor. É uma pessoa sabedora, não pouco inteligente.´

Tal como, monges, um homem com boa visão, de pé na margem de um lago, ao ver um peixe grande a emergir, pensa: `A julgar por esta sua emergência, pelas ondulações por ela causada e pela sua velocidade, não se trata de um peixe pequeno, mas de um grande´ -- do mesmo modo, quando em conversa com uma pessoa, fica-se a saber: `... Esta pessoa é sabedora, não é pouco inteligente´.

É com base nisto que se diz: `Na conversação, a sabedoria de uma pessoa pode ser conhecida...´.

Monges, estas são as quatro facetas (de uma pessoa) que podem ser conhecidas a partir das quatro circunstâncias mencionadas."

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(1)- É rara a utilização deste termo para se referir uma pessoa laica, como aqui. Normalmente, ele só é aplicado aos monges.
(2)- Infrações.
(3)- Em negócios, por comércio (também no sentido genérico do relacionamento social), na comunicação (também pela fala).
(4)- Pureza (de caráter).
(5)- A ideia é que ela fala e age de uma maneira em privado (quando pode ser franca) e diferentemente em contacto com outros (quando pode ter motivos ocultos).
(6)- Comportamento impuro.
(7)- Firmeza de caráter. 
NT*- Ensinamento
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2014/junho 16-22/sem. 25
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Sem Garantia (IV. 182)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Contra quatro coisas, monges, ninguém pode dar garantias, seja asceta, brâmane, deva, Mara ou qualquer outra pessoa no mundo. Quais quatro?

      Ninguém pode assegurar que o que é suscetível de se degradar, não se degradará;

      Ninguém pode assegurar que o que é suscetível de adoecer, não adoecerá;
      Ninguém pode assegurar que o que é suscetível de morrer, não morrerá;
      Nem que não resultará qualquer fruto das más ações praticadas anteriormente, sendo elas desonrosas, produtoras de renascimento, terríveis, com resultados dolorosos e conducentes a futuro nascimento, degradação e morte. 

Contra estas quatro coisas, ninguém pode dar garantias, seja asceta, brâmane, deva, Mara ou qualquer outra pessoa no mundo.
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2014/junho 09-15/sem. 24
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- A Volição (IV. 171)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, onde há um corpo(1), surge na pessoa prazer ou desprazer(2), como `resultado da volição*´  expressado ao nível corporal(3). Onde há uma fala, surge na pessoa prazer ou desprazer(2), como `resultado da volição´ expressado ao nível verbal. Onde há mente, surge na pessoa prazer ou desprazer(2), como `resultado da volição´ expressado ao nível mental. (E tudo isto é) condicionado por ignorância. (4)

Monges, ou a pessoa produz em si mesma (impulso) aquela carma-formação, com `resultado´ expressado ao nível corporal, pelo qual prazer ou desprazer surgem em si, ou a pessoa é induzida por outros. Ou a pessoa produz, com `Clara Compreensão´**, aquela carma-formação com `resultado´ expressado ao nível corporal, pela qual prazer ou desprazer surgem em si, ou o faz sem a clara compreensão.

Ou a pessoa produz em si mesma (impulso) aquela carma-formação, com `resultado´ expressado ao nível verbal, pelo qual prazer ou desprazer surgem em si, ou a pessoa é induzida por outros. Ou a pessoa produz, com clara compreensão, aquela carma-formação, com `resultado´ expressado ao nível verbal, pelo  qual prazer ou desprazer surgem em si, ou o faz sem a clara compreensão.

Ou a pessoa produz em si mesma (impulso) aquela carma-formação, com `resultado´ expressado ao nível verbal, pelo qual prazer ou desprazer surgem em si, ou a pessoa é induzida por outros. Ou a pessoa produz, com clara compreensão, aquela carma-formação com `resultado´ expressado ao nível verbal, pelo qual prazer ou desprazer surgem em si, ou o faz sem a clara compreensão.

      Em todos estes estados, monges, a ignorância está envolvida. (5)

Porém, após a completa cessação e extinção da ignorância, não mais existem aquele corpo, fala ou mente, condicionados pelos quais, possam surgir na pessoa o prazer ou o desprazer. Não mais existe um terreno fértil, uma fundação, uma base, uma causa, condicionados pelos quais, possam surgir na pessoa o prazer ou o desprazer." (6)

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(1)- Com.: Quando há a `porta´ de ação corporal, ou aparentemente corporal; a mesma explicação aplica-se à `fala´; contudo, no caso da mente, o termo `aparentemente´não é aplicável. Estas são as três Portas da Ação.
(2)- Com.: No caso de carma positivo, será agradável; com carma negativo, desagradável.
(3)- É a (cármica) volição (cetana), ou intenção (pakappana), na porta corporal que acompanha e dirige a ação corporal (condicionada). A mesma explicação aplica-se à fala e à mente. "A volição cármica, nos casos de ação corporal ou verbal, tem 20 aspetos, i.e., 8 classes de ação meritória e 12 classes de ação demeritória. no caso da pura ação mental, têm que ser associadas 9 classes de volição meditativa (ou desenvolvida).
(4)- Com. diz que é a ignorância que é a raiz de todas as volições cármicas. O SubCom. acrescenta: "se até as volições cármicas meritórias são condicionadas por ignorância, então, naturalmente, também as volições demeritórias são condicionadas; isto porque uma volição cármica, de qualquer tipo, só pode surgir quando a ignorância ainda não foi abandonada" (a qual só está totalmente abandonada no estado de Arahant, a Iluminação Total).
(5)- Com.: Simultaneamente ou por indução.
(6)- Isto refere-se ao Arahant (sem Grilhões). Embora também ele, desenvolva atividade corporal, verbal e mental, a volição causadora ou acompanhante dessas atividades não produz qualquer `resultado de carma´.
NT*- A volição é uma carma-formação (carma significa ação intencional). Qualquer carma-formação, ou ação (corporal, verbal ou mental) intencional, produz uma consequência, o chamado `resultado do carma´ (em Pali: vipaka).
NT**- O discernimento das coisas corretamente, inteiramente e de igual forma é a `Clara Compreensão´. Há 4 tipos de clara compreensão: do propósito, da conveniência, da última instância e da não-delusão.
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2014/junho 02-08/sem. 23
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Medo da Morte (IV. 184)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Brâmane Janussoni foi visitar o Bem-Aventurado. À chegada, trocou saudações de cortesia com o Bem-Aventurado, sentou-se a seu lado e dirigiu-se-lhe assim:
-- "Eu defendo, Mestre Gotama, e considero que não existe mortal que não tema a morte ou não a receie."
-- "Na verdade, Brâmane, existe o mortal que teme a morte ou a receia. Mas, há também o mortal que não teme a morte nem a receia. E quem são esse que teme a morte e o outro que não a teme?
-- Há, Brâmane, a pessoa que não está livre da cobiça por prazeres sensoriais, não está livre do desejo e afeição por eles, não está livre da sede e da febre (por eles), não está livre do anseio (por prazeres sensoriais). Então, acontece que uma grave doença o atinge. Estando afligido pela grave doença, ocorre-lhe o seguinte pensamento: `Ó, aqueles adorados prazeres sensoriais irão deixar-me, e eu terei de os deixar!´ Devido a isso, ele sofre e está preocupado, lamenta-se, bate no peito e está profundamente perturbado. Este mortal, Brâmane, é pessoa que teme a morte ou a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que, no que respeita ao corpo, não está livre da cobiça por ele, não está livre do desejo e afeição, não está livre da sede e da febre, não está livre do anseio (por ele). Então, acontece que uma grave doença o atinge. Estando afligido pela grave doença, ocorre-lhe o seguinte pensamento: `Ó, este adorado corpo irá deixar-me, e eu terei de o deixar!´ Devido a isso, ele sofre...  e está profundamente perturbado. Este mortal, Brâmane, é pessoa que teme a morte ou a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que nada fez de honroso, nada fez de bem, nunca protegeu quem estivesse com medo; ao invés, fez o que é mau, cruel e perverso. Então, acontece que uma grave doença o atinge. Estando afligido pela grave doença, ocorre-lhe o seguinte pensamento: `Ó, eu não fiz nada de honroso ou de bem e não protegi quem estivesse com medo, ao invés, fiz o que é mau, cruel e perverso. Na próxima vida, terei o destino dos que fizeram essas ações.´ Devido a isso, ele sofre e está preocupado, lamenta-se, bate no peito e está profundamente perturbado. Também este mortal, Brâmane, é pessoa que teme a morte ou a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que tem dúvidas e perplexidade, sem certezas quanto à Boa Lei. Então, acontece que uma grave doença o atinge. Estando afligido pela grave doença, ocorre-lhe o seguinte pensamento: `Ó, eu estou cheio de dúvidas e perplexidade, e não tenho certezas quanto à Boa Lei!´. Devido a isso, ele sofre e está preocupado, lamenta-se, bate no peito e está profundamente perturbado. Também este mortal, Brâmane, é pessoa que teme a morte ou a receia.

E qual é o mortal, Brâmane, que não teme a a morte nem a receia?
-- Há, Brâmane, a pessoa que está livre da cobiça por prazeres sensoriais, está livre do desejo e afeição por eles, está livre da sede e da febre (por eles), está livre do anseio (por prazeres sensoriais). Quando uma grave doença o atinge não o afligem pensamentos como: `Ó, aqueles adorados prazeres sensoriais irão deixar-me, e eu terei de os deixar!´ Desse modo, ele não sofre... Este mortal, Brâmane, é pessoa que não teme a morte nem a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que, no que respeita ao corpo, está livre da cobiça por ele... Quando uma grave doença o atinge, não o afligem pensamentos como: `Ó, este adorado corpo irá deixar-me, e eu terei de o deixar!´ Desse modo, ele não sofre... Este mortal, Brâmane, é também pessoa que não teme a morte nem a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que nada fez de mal, cruel ou perverso, antes fez o que é honroso e de bem, e protegeu quem estava com medo. Quando uma grave doença o atinge, ocorrem-lhe os seguintes pensamentos: `Eu não fiz nada de mal, cruel ou perverso, antes fiz o que é honroso e de bem, e protegi quem estava com medo, ao invés, fiz o que é mau, cruel e perverso. Na próxima vida, terei o destino dos que fizeram essas ações.´ Desse modo, ele não sofre.... Também este mortal, Brâmane, é pessoa que não teme a morte nem a receia.

Além disso, Brâmane, há a pessoa que não tem dúvidas nem perplexidade, e conquistou certezas quanto à Boa Lei. Quando uma grave doença o atinge, ocorre-lhe o seguinte pensamento: `Eu estou livre de dúvidas e perplexidade, e conquistei certezas quanto à Boa Lei!´. Desse modo, ele não sofre nem está preocupado, não se lamenta, não bate no peito e não está perturbado. Também este mortal, Brâmane, é pessoa que não teme a morte nem a receia.

Estes são, Brâmane, os quatro mortais que não temem a morte nem a receiam."

-- "Maravilhoso, Mestre Gotama! Maravilhoso, Mestre Gotama... Queira o Mestre Gotama aceitar-me como um devoto laico que busca refúgio nele, a partir deste mesmo dia e até que a vida dure."
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2014/maio 26-junho 01/sem. 22
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Os Caminhos para a Santidade (IV. 170)
Tradução para português de Nuno Aragão

Assim eu ouvi. Certa vez, o Venerável Ananda residia em Kosambi, no mosteiro de Ghosita, tendo-se dirigido aos monges assim:
-- Irmãos-monges!"
-- "Sim, irmão"*, responderam os monges.
-- "Irmãos!**, quem quer que, seja monge ou monja, declare perante mim ter alcançado a Santidade (estado de Arahant***), alcançou-a por um destes quatro modos. Quais quatro?
-- Em relação a este assunto, irmãos, podemos ter o caso de um monge desenvolver a `Visão Interior´**** precedida por Tranquilidade(1). Ao mesmo tempo que ele a desenvolve, a Senda (-alcançamento)(2) nasce em si. Ele então cultiva, desenvolve e fortalece essa Senda (-alcançamento)(3) e, enquanto assim procede, os Grilhões são abandonados e as tendências(4) (para o que é negativo) dissolvem-se.

Ou então, irmãos, pode dar-se o caso de um monge desenvolver a Tranquilidade precedida pela Visão Interior(5). Ao mesmo tempo que ele a desenvolve, a Senda nasce em si. Ele então cultiva, desenvolve e fortalece essa Senda e, enquanto assim procede, os Grilhões são abandonados e as tendências (para o que é negativo) dissolvem-se.

Ou então, irmãos, dá-se o caso de um monge desenvolver a Tranquilidade e a Visão Interior aos pares(6). Ao mesmo tempo que ele as desenvolve, a Senda nasce em si. Ele então cultiva, desenvolve e fortalece essa Senda e, enquanto assim procede, os Grilhões são abandonados e as tendências (para o que é negativo) dissolvem-se.

Ou então, irmãos, pode a mente de um monge ser tomada por agitação causada pelos mais elevados estados mentais(7). Contudo, um tempo virá em que a sua mente se tornará profundamente tranquila, firme, unificada e concentrada; então a Senda nasce em si. Depois, ele cultiva, desenvolve e fortalece essa Senda e, enquanto assim procede, os Grilhões são abandonados e as tendências (para o que é negativo) dissolvem-se.

Irmãos, quem quer que, seja monge ou monja, declare perante mim ter alcançado a Santidade (o estado de Arahant), alcançou-a por um destes quatro modos.

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NT*- Este é o termo que Buda, já próximo do Paranirvana (entrada em Nirvana) estabeleceu para os monges usarem ao se dirigirem uns aos outros, após a sua `partida´.
NT**- Membros da Irmandade, i.e., o Sangha ou comunidade dos monges.
NT***- A quarta e última Senda da consciência supra-mundana, i.e., último dos `4 Graus de Realização de Nirvana´ ou `4 Graus de Santidade´, sendo que qualquer um destes graus compreende duas fases: o seu entendimento específico e, depois, a respetiva consecução prática. É na fase da consecução prática que o entendimento se torna prático e efetivo, e é então que os Grilhões (negatividades) correspondentes a cada uma das Sendas, vão sendo dissolvidos e a progressiva Libertação vai sendo realizada. As Sendas só podem ser alcançadas por ordem, i.e., da primeira até à quarta.
NT****- Visão direta e penetrativa (em inglês, `Insight´).
(1)- Isto refere-se a um meditador que toma a [meditação da] "Tranquilidade como veículo" da sua prática [a meditação Samatha], i.e., que desenvolve primeiro a tranquilidade da total concentração dos Jhanas (Absorções meditativas) e, após alcançar uma delas, dedica-se à meditação da Visão Interior (Vipassana).
(2)- Senda, neste caso, a primeira Senda supra-mundana, a do "Entrado-no-Fluxo" (sotapatti-magga)
(3)- De acordo com os Com., isto refere-se aos esforços para alcançar as três Sendas mais elevadas ("Um-Retorno", "Sem-Retorno" e "Total Iluminação").
(4)- `Tendências´: são as  propensões ou impurezas mentais, as quais, tendo-se tornado fortes através da habituação, estão profundamente arreigadas na mente e tendem a surgir ( a manifestar-se, a irromper) espontaneamente. Elas são, na verdade, verdadeiros estados mentais ativos, não meramente latentes. 
(5)- Isto refere-se a quem, por natural inclinação, alcançou a Visão interior e, baseado nessa visão, produz concentração (samadhi). Sub-Com.: "Isto é uma pessoa que toma a "Visão Interior como veículo"
(6)- Neste tipo de prática, a pessoa no primeiro Jhana e, após ´vir à tona´ a seguir, aplica a Visão Interior a essa experiência meditativa, i.e., a pessoa vê os estados mentais desse Jhana (sensação, perceção, etc) como impermanentes, responsáveis por sofrimento. Logo após, entra no segundo Jhana, seguido por Visão Interior, e aplica o mesmo procedimento (por pares) também aos outros Jhanas, até que, no momento do surgimento da Visão Interior, a Senda do "Entrado-no-Fluxo" seja consumada.
(7)- A agitação aqui referida é uma reação ao surgimento das dez Ìmpurezas da Visão Interior´, quando estes dez estados mentais mais elevados são erroneamente tomados como indicadores do alcançamento da Senda. Do mesmo modo, a expressão `pensamentos sobre estados mais elevados (experienciados em meditação)´ que ocorre no texto da Reflexão da Semana da semana 3 deste ano (janeiro 13-19), refere-se às mesmas dez `Impurezas´; Sub-Com.: "erroneamente enxergadas".

NOTA- Para aprofundamento do tema deste discurso, o leitor poderá consultar o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa.
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2014/maio 19-25/sem. 21
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- 4 Modos de Comportamento (IV. 165)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há quatro modos de comportamento. Quais são?
Os modos da impaciência, da paciência, da dominação e da aquietação.

Em que consiste o modo da impaciência(1)? A pessoa, ao ser repreendida, repreende de volta; ao ser magoada, magoa de volta; ao ser insultada, insulta de volta.

E qual é o caminho da paciência(2)? A pessoa, ao ser repreendida, não repreende de volta; ao ser magoada, não magoa de volta; ao ser insultada, não insulta de volta.

E o caminho da dominação(3)? Aqui, o monge, ao aperceber um objeto visível, não se concentra no seu aspeto global nem nos pormenores. Isso porque, quando a visão é deixada sem proteção, podem impregnar-se estados negativos ou nefastos de cobiça e/ou aflição, razão pela qual ele aplica a contenção da faculdade da visão, alcançando, desse modo, o seu controlo. Ao ouvir um som com o ouvido..., ao cheirar um odor..., ao experimentar um sabor..., ao tocar um objeto..., ao conhecer um objeto mental com a mente, ele não se concentra no seu aspeto global nem nos pormenores. Isso porque, quando a mente é deixada sem proteção, podem impregnar-se estados negativos ou nefastos de cobiça e/ou aflição, razão pela qual ele aplica a contenção da faculdade da visão, alcançando, desse modo, o seu controlo.

E qual é o caminho da aquietação? Aqui, o monge, não tolera nele quaisquer pensamentos de cobiça sensual, de aversão ou crueldade, nem quaisquer outros estados impróprios que possam manifestar-se nele. Ele abandona-os, afasta-os, destrói-os, elimina-os.

Estes são, monges, os quatro modos de comportamento." 

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(1)- Ou da ausência de autocontrolo.
(2)- Ou do autocontrolo.
(3)- Ou contenção, dos sentidos. [Isto refere-se ao treino do monge budista que visa o apercebimento da realidade tal como ela é. Para isso, o monge, na sua prática de progressivo autoaperfeiçoamento, treina-se a contrariar a tendência natural de imediatamente formar uma perceção, de fazer um juizo, aquando do normal exercício da atividade de qualquer dos 6 sentidos (visão, audição, olfato, paladar, tato ou mente), na medida em que a perceção daí resultante é necessariamente subjetiva e parcial e, portanto, de algum modo enganadora e deturpadora da realidade. Trata-se assim do treino da aplicação da `atenção vigilante´ (a prática básica do monge budista), i.e., do progressivo aperfeiçoamento da apreensão da realidade, aperfeiçoamento esse que só termina aquando da consecução do estado de Arahant, ou de absoluta Iluminação].
(4)- Ou a coartação dos pensamentos impróprios, prejudiciais.
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2014/maio 12-18/sem. 20
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Em Benefício Próprio (IV. 117)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Em benefício próprio(1), monges, deve a lúcida cientificação ser tornada a sentinela da mente, e isso por quatro razões:
-- `Possa a minha mente não acolher cobiça por coisa alguma que induza à cobiça!´ -- para isso e em benefício próprio, deve a lúcida cientificação ser tornada a sentinela da mente.
-- `Possa a minha mente não acolher aversão por coisa alguma que induza à aversão!´ -- para isso e em benefício próprio, deve a lúcida cientificação ser tornada a sentinela da mente.
-- `Possa a minha mente não acolher delusão por coisa alguma que induza à delusão!´ -- para isso e em benefício próprio, deve a lúcida cientificação ser tornada a sentinela da mente.
-- `Possa a minha mente não acolher paixão intoxicante por coisa alguma que induza à paixão intoxicante!´ -- para isso e em benefício próprio, deve a lúcida cientificação ser tornada a sentinela da mente.

Monges, quando a mente de um monge não acolhe cobiça por coisa alguma que induza à cobiça, por ele estar livre da cobiça; quando a sua mente não acolhe aversão por coisa alguma que induza à aversão, por ele estar livre da aversão; quando a sua mente não acolhe delusão por alguma coisa que induza à delusão, por ele estar livre da delusãoquando a sua mente não acolhe paixão intoxicante por alguma coisa que induza à paixão intoxicante, por ele estar livre da paixão intoxicante,

Então esse monge não vacilará, abanará ou tremerá, não sucumbirá ao medo, não seguirá modos de pensar alheios."

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(1)- Aspirando ao bem-estar próprio.
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2014/maio 05-11/sem. 19
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Vigilância (IV. 116)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Em quatro situações, monges, deve a vigilância* ser aplicada. Quais quatro?
Devem abandonar a postura mental incorreta na ação; e devem cultivar a postura mental correta** na ação. Não sejam negligentes nisso.
Devem abandonar a postura mental incorreta na palavra; e devem cultivar a postura mental correta na palavra. Não sejam negligentes nisso.
Devem abandonar a postura mental incorreta no pensamento; e devem cultivar a postura mental correta no pensamento. Não sejam negligentes nisso.
Devem abandonar a compreensão incorreta; e devem cultivar a compreensão correta***. Não sejam negligentes nisso.

Se um monge tiver abandonado a postura mental incorreta na ação, na palavra e no pensamento; se ele tiver abandonado a compreensão incorreta e cultivado a compreensão correta, não necessita de temer a morte numa futura existência."(1)

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*- Vigilância ou "atenção vigilante", i.e., atenção desprendida (sem qualquer envolvimento emocional ou intelectual), na qual está presente `sati´ palavra do Pali, a língua falada por Buda, que denota a faculdade de ser independente, pura, cristalina.
**- O segundo fator do Caminho Nobre (Óctuplo) ou Caminho do Meio.
***- O primeiro fator do Caminho do Meio.
(1)- O Comentário diz que isto se aplica ao "Arahant", i.e., Totalmente Iluminado (que está livre de novo nascimento e morte). O Comentário cita no entanto outro entendimento, o qual, com base na menção a compreensão correta, aplica esta passagem ao "Entrado-no-Fluxo" (que tem assegurada a libertação final). para cabal esclarecimento, consultar o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa.
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2014/abril 28-maio 04/sem. 18
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Homem Reto (IV. 73)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, um homem que tenha estas quatro características, não deve ser considerado reto. Quais são as quatro?
1-- Mesmo sem ser perguntado, o homem sem retidão revela as faltas de outros, quanto mais se perguntado. Quando perguntado e induzido pelas perguntas, fala das faltas de outros sem omissões nem retrações, de forma exaustiva e em pormenor.
2-- Além disso, mesmo quando perguntado,  o homem sem retidão não fala do que é louvável em outros, e menos ainda se não é perguntado. Quando perguntado e obrigado a responder, fala do que é louvável em outros com omissões e hesitações, de forma incompleta e sem pormenor.
3-- Por outro lado, não revela as suas próprias faltas, nem mesmo se perguntado. Quando perguntado e obrigado a responder, fala das suas faltas com omissões e hesitações, de forma incompleta e sem pormenor.
4-- Além disso, o homem sem retidão revela o que tem de louvável, mesmo sem ser perguntado, quanto mais se perguntado. Quando perguntado e induzido pelas perguntas, fala do que tem de louvável sem omissões nem hesitações, de forma exaustiva e em pormenor.
Quem tem alguma destas quatro características não deve ser considerado um homem reto.

Por sua vez, monges, um homem que tenha estas quatro características, deve ser considerado reto. Quais são as quatro?
5-- Mesmo quando perguntado, o homem reto não revela as faltas de outros, menos ainda se não perguntado. Quando perguntado e induzido pelas perguntas, fala das faltas dos outros com omissões e hesitações, de forma incompleta e sem pormenor.
6-- Além disso, mesmo sem ser perguntado, revela o que é louvável em outros, quanto mais se perguntado. Quando perguntado e obrigado a responder, fala do que é louvável em outros, sem omissões nem retrações, de forma exaustiva e em pormenor.
7-- Por outro lado, mesmo com prejuízo pessoal, o homem reto revela as suas próprias faltas, quanto mais se perguntado. Quando perguntado e obrigado a responder, fala das suas faltas sem omissões nem retrações, de forma exaustiva e em pormenor.
8-- Além disso, mesmo quando perguntado, o homem reto não revela o que é louvável nele, menos ainda se não perguntado. Quando perguntado e obrigado a responder, fala das suas características louváveis com omissões e hesitações, de forma incompleta e sem pormenor.
Quem tem alguma destas quatro características deve ser considerado um homem reto."
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2014/abril 21-27/sem. 17
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Para benefício próprio e dos outros (IV. 96 e 99)
Tradução para português de Nuno Aragão

"No mundo, monges, há quatro tipos de pessoas: as que vivem para o seu benefício, mas não para o dos outros; as que vivem para o benefício dos outros, mas não para o seu próprio; as que não vivem para seu próprio benefício nem  para o dos outros; as que vivem para ambos, o seu próprio beneficio e o dos outros.
I. (Sutta 96): E de que modo, monges, vive uma pessoa para seu próprio benefício e não para o de outros? Praticando, ela própria, a remoção de desejo ardente, aversão e delusão, mas não encorajando outros a trabalhar a remoção de desejo ardente, aversão e delusão.
  (Sutta 99): A pessoa abstém-se de matar, de roubar, de cometer adultério, de mentir e de tomar intoxicantes, mas não encoraja outros a praticar essas abstenções.
II. (96):  E de que modo, monges, vive uma pessoa para o benefício dos outros mas não para o seu próprio? Encorajando os outros a remover desejo ardente, aversão e delusão, mas não praticando, ela própria, essa remoção.
  (99): A pessoa encoraja outros a abster-se de matar, roubar, cometer adultério, mentir e tomar intoxicantes, mas ela própria não pratica essa abstenção.
III. (96): E de que modo, monges, vive uma pessoa nem para o seu próprio benefício nem para o de outros? Não praticando, ela própria, a remoção de desejo ardente, aversão e delusão, nem encorajando os outros a fazê-lo.
  (99): A pessoa abstém-se de matar, de roubar, de cometer adultério, de mentir e de tomar intoxicantes, e também não encoraja os outros a praticar essas abstenções.
IV. (96): E de que modo, monges, vive uma pessoa para ambos, o seu próprio benefício e o de outros? Praticando, ela própria, a remoção de desejo ardente, aversão e delusão, e encorajando os outros a fazer o mesmo.
  (99): A pessoa abstém-se de matar, de roubar, de cometer adultério, de mentir e de tomar intoxicantes, e encoraja os outros a praticar essas abstenções."
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2014/abril 14-20/sem. 16
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Os Pais (IV. 63)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, com Brahma, estão as famílias onde, em casa, os pais são respeitados pelos filhos. Com os professores de antanho(1) estão as famílias onde, em casa, os pais são respeitados pelos filhos. Com as divindades de outrora(1) estão as famílias onde, em casa, os pais são respeitados pelos filhos. Com os que são dignos de veneração(2) estão as famílias onde, em casa, os pais são respeitados pelos filhos.

`Brahma´, monges, é um termo para pai e mãe. `Os professores de antanho´... `As divindades de antanho´... `Os que são dignos de veneração´... ;todos estes são termos para pai e mãe. E porquê? [Porque] monges, os pais são de grande ajuda para os filhos, educam-nos, alimentam-nos e mostram-lhes como o mundo é."

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(1)- Os pais são como professores e divindades nos primeiros anos da criança.
(2)- lit. `com os que são dignos de oferendas´, i.e., os santos [Arahants] ou pessoas `eméritas´ [`Entrados-no Fluxo´, `Um-Retorno´ ou `Sem-Retorno´´ ].
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2014/abril 07-13/sem. 15
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Nakulapita e Nakulamata(IV. 55)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado estava a residir com o povo de Bhagga, próximo de Sumsumaragiri, no parque das gazelas do bosque de Bhesakala. Uma manhã, o Bem-Aventurado arranjou-se, vestiu o manto exterior, pegou na padela e dirigiu-se a casa de Nakulapita. Lá chegado, sentou-se num assento preparado para ele. Então, Nakulapita e sua mulher, Nakulamata,(1) aproximaram-se, saudaram o Bem-Aventurado, sentaram-se a seu lado e o marido disse:
-- "Mestre, desde que a minha jovem esposa foi trazida para junto de mim, sendo eu igualmente jovem, não recordo qualquer ocasião em que a tenha enganado em pensamento, muito menos em ações. Mestre, a nossa aspiração é estarmos próximos um do outro enquanto durar esta vida, e bem assim, na próxima."

Então a esposa, por sua vez, dirigiu-se a Buda assim:
-- "Mestre, desde que fui trazida para casa do meu jovem marido, sendo eu igualmente uma jovem rapariga, não recordo qualquer ocasião em que o tenha enganado em pensamento, muito menos em ações. Mestre, a nossa aspiração é estarmos próximos um do outro enquanto durar esta vida, e bem assim, na próxima." 
(então o Bem-Aventurado falou assim:)

"Se ambos, marido e mulher, aspiram a estar próximos um do outro enquanto esta vida durar, bem como na próxima vida, então devem ter as mesmas crenças, a mesma virtude, a mesma generosidade, a mesma sabedoria; desse modo, estarão próximos um do outro enquanto durar esta vida, e bem assim, na próxima."

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(1)- Nakulapita e Nakupamata são tidos como os principais discípulos laicos de Buda no tocante à sua mútua confiança e harmonia. de acordo com o comentário, eles foram durante quinhentas existências os pais de Buda ou familiares. Por isso, ao se encontrarem com Buda pela primeira vez, Nakulapita saudou Buda como seu filho. Nessa ocasião, alcançaram ambos o grau de "Entrado-no-Fluxo", após o discurso de Buda.
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2014/março 31-abril 06/sem. 14
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Os Quatro `Impensáveis´ (IV. 77)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há estes quatro `impensáveis´, não passíveis de serem objeto de reflexão(1), sendo que a reflexão sobre eles conduz a pessoa à insanidade mental e angústia. Quais são esses quatro?
-- O alcance(2) de um Buda, monges, é um desses `impensáveis´, não passíveis de serem objeto de reflexão, sendo que a reflexão sobre eles conduz a pessoa à insanidade mental e desgraça.
-- O alcance das absorções meditativas, monges, é outro desses `impensáveis´...  
-- O alcance dos resultados do carma, monges, é outro desses `impensáveis´ ... 
-- O alcance das especulações sobre o mundo, monges, é o outro desses `impensáveis´não passíveis de serem objeto de reflexão, sendo que a reflexão sobre eles conduz a pessoa à insanidade mental e desgraça.

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(1)- Não adequados para serem pensados; não adequados para serem objeto de pensamento especulativo.
(2)- As qualidades específicas e a sua abrangência. 
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2014/março 24-30/sem. 13
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Distorções (IV. 49)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, há quatro distorções na perceção(1), (quatro) distorções na interpretação, (quatro) distorções no entendimento(2). Quais quatro?
Sustentar que no impermanente existe permanência, é uma distorção na perceção, na interpretação e no entendimento.
Sustentar que no sofrimento existe felicidade, é uma distorção na perceção, na interpretação e no entendimento.
Sustentar que onde não há uma personalidade permanente existe personalidade, é uma distorção na perceção, na interpretação e no entendimento.
Sustentar que no impuro existe pureza, é uma distorção na perceção, na interpretação e no entendimento.

Estas são, monges, as quatro distorções na perceção, na interpretação e no entendimento.

E monges, há quatro não-distorções na perceção, na interpretação e no entendimento. Quais quatro?
Sustentar que no impermanente existe (somente) impermanência... que no sofrimento existe (somente) sofrimento... que onde não há uma personalidade permanente não existe personalidade... que no impuro não existe pureza, estas são as quatro não-distorções na perceção, na interpretação e no entendimento.
Aqueles que apreendem o transitório como permanente,
O sofrimento como bênção, a não-personalidade como personalidade,
E veem no impuro pureza e beleza,
Por entendimentos incorretos estão tomados esses seres
De mente inconsistente e sujeita a ilusões.

Apanhados nos laços de Mara, não libertos
Estão eles das amarras, longe do estado seguro.
Esses seres vagueiam pela Ronda dolorosa
E prosseguem, vez após vez, do nascimento à morte.

Mas quando os Budas no mundo aparecem,
Trazendo a luz, mostram o Ensinamento claro
Que conduz ao alívio de todo o mal.

Se os homens prudentes lhe derem ouvidos,
Regressarão à sensatez e enxergarão
O impermanente como transitório e o mal como mal.

A ausência de uma personalidade como não-personalidade,
O impuro como vazio de encanto.
Dotados desse correto entendimento,
Todo o sofrimento irão eles transcender."

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(1)- Distorção ou deturpação da realidade.
(2)- Estes três tipos de distorção são ilustrados pelo falecido Ven. Vajiranana Maha Nayakathera, do Sri Lanka, do modo seguinte: ao anoitecer, um homem vê algo a mover-se num arbusto e crê tratar-se de um fantasma (quando na verdade se trata de um animal); isto é a sua perceção distorcida. Os pensamentos de medo do fantasma são a sua interpretação distorcida . Ele arranjou uma cerimónia para expulsar o fantasma; isto é causado pelo seu entendimento distorcido.
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2014/março 17-23/sem. 12
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Rohitassa (IV. 45)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado estava a residir no Bosque de Jeta, no mosteiro de Anathapindika. A uma hora já bastante avançada da noite, Rohitassa, um dos devas(1), aproximou-se e, em resplandecente beleza, inundou o inteiro bosque com a sua brilhante luz. Tendo-se acercado do Bem-Aventurado, saudou-o e, ficando de pé a seu lado, dirigiu-se-lhe assim:
-- "Será possível, Mestre, que, por meio de simplesmente seguir numa viagem, se consiga ver ou alcançar esse `termino-do-mundo´ onde não existe nascimento, envelhecimento, morte ou ressurgimento?"
-- "Amigo, não é possível que, por meio de simplesmente se seguir numa viagem(2),  se consiga ver ou alcançar esse `termino-do-mundo´ onde não existe nascimento, envelhecimento, morte ou ressurgimento".
-- "É maravilhoso, Mestre! É realmente notável, Mestre, a maneira clara como o Bem-Aventurado disse que não é possível conhecer, ver ou alcançar esse `termino-do-mundo´, por meio de simplesmente seguir numa viagem."
-- "Numa minha vida anterior, eu era um eremita(3) chamado Rohitassa, filho de Bhoja. Dotado de poderes mágicos, eu podia caminhar pelos céus. E tal era a minha velocidade que, por exemplo, no tempo necessário para um exímio, experiente e treinado arqueiro disparar, rapidamente e sem oposição, uma flecha através da sombra de uma palmeira, durante esse preciso tempo, eu podia dar um passo tão grande como a distância entre os mares oriental e ocidental. Dotado de tal velocidade e de passo tão grande, surgiu em mim o desejo de caminhar até ao término do mundo. E, ao longo dos restantes cem anos da minha vida, com exceção do tempo necessário para comer, beber, atender às necessidades fisiológicas, dormir e descansar, caminhei continuamente e, sem nunca alcançar o término do mundo, morri durante a minha viagem."

-- "É maravilhoso, Mestre! É realmente notável, Mestre, a maneira clara como o Bem-Aventurado disse que não é possível, por meio de simplesmente seguir numa viagem, conhecer, ver ou alcançar esse `termino-do-mundo´ onde não existe nascimento, envelhecimento, morte ou ressurgimento."

-- Na verdade, amigo, eu afirmo isso. Mas eu não digo que se pode dar um fim ao sofrimento sem ter alcançado o término do mundo. E digo ainda, amigo, que neste corpo do tamanho de uma braça, com as suas perceções e pensamentos, existe o mundo, a origem do mundo, a cessação do mundo e o caminho que conduz à cessação do mundo*.

      
      Não é caminhando que pode alguma vez ser alcançado
      O término e limite  do mundo.
      Contudo, não há escape do mal
      Enquanto o término do mundo não for alcançado.

      Assim, aquele que conhece sabiamente o mundo
      E aperfeiçoou a vida de pureza, atingirá o fim.
      Esse, conhecedor do término do mundo e pacificado interiormente,
      Não mais ansiará por este ou qualquer outro mundo."

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(1)- devaputta, um `filho dos devas´, i.e., um ser celestial.
(2)- Nenhuma viagem terrena ou aérea, nenhuma peregrinação de entre as intermináveis possibilidades da experiência humana ou divina pode alcançar o término deste mundo com seu inerente sofrimento, nem pode acabar as migrações e transmigrações de seres tentados, vez após vez, por expectativas ilusórias de um sempre fugidio horizonte.
(3)- um visionário, um sage.
*NT- Para desenvolvimento deste assunto, consultar um professor de meditação ou o livro "O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa, nos Capítulos dedicados às 4 Sublimes Verdades.
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2014/março 10-16/sem. 11
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Suppavasa (IV. 57)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado estava a residir entre os Koliyans, numa cidade chamada Sajjanela. Uma manhã, o Bem-Aventurado arranjou-se, vestiu o manto exterior* e a padela**, e dirigiu-se a casa de Suppavasa, uma senhora Koliyan (1). Quando lá chegou, sentou-se num assento previamente preparado para ele. E Suppavasa, a senhora Koliyan, serviu ela mesma ao Bem-Aventurado comida de qualidade tanto forte como suave. Quando o Bem-Aventurado terminou a refeição e colocou a mão fora da padela, Suppavasa sentou-se a seu lado, e o bem-Aventurado dirigiu-se-lhe assim:

"Suppavasa, uma nobre discípula, ao doar comida, dá quatro coisas a quem a recebe. Quais quatro? Ela dá longa vida, beleza, felicidade e força. E, dando longa vida, assegura longa vida, humana ou divina, para si própria. Dando beleza, assegura beleza, humana ou divina, para si própria. Dando felicidade, assegura felicidade, humana ou divina, para si própria. Dando força, assegura força, humana ou divina, para si própria.

Uma nobre discípula laica, Suppavasa, ao doar comida, dá estas quatro coisas a quem a recebe."

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(1)- Suppavasa é tida como a principal, de entre as discípulas laicas de Buda, a oferecer comida de alta qualidade aos monges. Ela era a mãe do Arahant Sivali.
*NT- O manto exterior do monge é o 3º manto usado, por cima dos outros 2, em ocasiões especiais, como cerimoniais importantes ou para sair do recinto de residência, particularmente nas ações de mendicância (pindapata). 
**NT- A padela (também designada por escudela, tijela ou vaso de monge) é o recipiente usado pelos monges para recolha das dádivas de comida, quando em pindapata.
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2014/março 03-09/sem. 10
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Dona (IV. 36)
Tradução para português de Nuno Aragão

Certa vez, o Bem-Aventurado caminhava na estrada entre Ukkattha e Setavya. Acontece que o brâmane Dona, que estava também a caminhar ao longo dessa estrada, viu nas pegadas do Bem-Aventurado as marcas da roda com mil raios, com as cambas e o eixo em perfeito estado, sob todos os aspetos(1). Ao ver aquelas marcas, pensou: "É verdadeiramente maravilhoso, é espantoso! Estas marcas não podem, por certo, ser pegadas de um ser humano!"

Entretanto, o Bem-Aventurado deixou a estrada e sentou-se à sombra de uma árvore, não muito afastada, com as pernas cruzadas, mantendo o corpo ereto e atenção vigilante. Dona, o brâmane, seguindo as pegadas do Bem-Aventurado, viu-o sentado, com aspeto agradável, inspirando confiança, feição e mente calmas, em serenidade e equilíbrio perfeitos, controlado e comedido (como) um elefante bem treinado. Aproximou-se do Bem-Aventurado e disse:

-- Virá vossa reverência a ser um deus?
-- Não, brâmane, eu não virei a ser um deus.
-- Então, poderá vossa reverência vir a ser um Gandharva(2)?
-- Não, Não, brâmane, eu não virei a ser um Gandharva.
-- Poderá, então, vossa reverência, vir a ser um demónio?
-- Não, brâmane, eu não virei a ser um demónio.
-- Poderá, então, vossa reverência, vir a ser um ser humano?
-- Não, brâmane, eu não virei a ser um ser humano.
-- Então, quando eu perguntei se vossa reverência virá a ser um deus, um Gandharva, um demónio ou um ser humano, respondeu que não. O que virá, então, vossa reverência a ser?
-- Brâmane, se eu não tivesse abandonado os grilhões* que dão origem a isso**, eu viria a ser um deus, [mas] esses grilhões foram por mim abandonados, cortados rente, tornados estéreis, como um coto de uma palmeira, foram feitos em nada e não têm qualquer capacidade de se levantar de novo no futuro.
Se os grilhões que dão origem a isso, não tivessem sido abandonados, eu viria a ser um Gandharva, um demónio ou um ser humano, [mas] esses grilhões foram por mim abandonados, cortados rente, tornados estéreis como um coto de uma palmeira, foram feitos em nada e não têm qualquer capacidade de se levantar de novo no futuro.

"Brâmane, do mesmo modo que uma flor de lotus azul, encarnada ou branca, embora nascida e criada na água, se eleva acima da água e se mantém não manchada por ela, também eu, embora nascido e criado no mundo, tendo superado o mundo, vivo não manchado pelo mundo. Considere-me um Buda, brâmane." (3)

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(1)- As marcas da roda nas solas dos pés são uma das 32 marcas de um Grande Homem atribuídas a Buda.
(2)- Uma classe de semi-deuses pertencente ao Céu dos Quatro Grandes Reis Divinos, considerados músicos celestiais.
(3)- De acordo com os Comentários, após este Discurso, atingiu as três primeiras Sendas da Santidade e respetivos Frutos e compôs um longo poema em louvor a Buda chamado `O Trovão de Dona´. 
*NT- Grilhões, ie, manchas, defeitos, são os aspetos que, uma vez alcançada a consciência supra-mundana, são corrigidos ao longo das 4 Sendas da Santidade, a caminho da Iluminação Total (estado de Arahant). Para mais informação ver ("O Ensinamento de Buda" de Walpola Rahula, Edit. Estampa).
**NT- Grilhões que dão origem ao renascimento.
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2014/fevereiro 24- março 02/sem. 9
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Tathagata
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, o mundo(1) foi completamente entendido por um Tathagata(2); um Tathagata está liberto do mundo(1).
A origem do mundo foi completamente entendida por um Tathagata; um Tathagata erradicou a origem do mundo.
A cessação do mundo foi completamente entendida por um Tathagata; um Tathagata realizou a cessação do mundo.
O caminho para a cessação do mundo foi completamente entendido por um Tathagata; um Tathagata cultivou o caminho(3) para a cessação do mundo.
Monges, tudo aquilo que no mundo inteiro -- com seus devas, Maras, deuses Brahma e sua multidão de eremitas e Brâmanes, devas e humanos -- é visto, ouvido, sentido, percecionado, alcançado, perscrutado ou ponderado, tudo isso foi completamente entendido por um Tathagata. Por isso, ele é considerado um Tathagata.

Além disso, monges, tudo aquilo que um Tathagata profere, divulga e proclama, desde o dia da sua Iluminação até à sua completa entrada no Nirvana-elemento, o qual é sem qualquer resíduo dos grupos(4) -- tudo isso é do modo como ele diz e de nenhum outro. Por isso, ele é considerado um Tathagata."

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(1)- Isto refere-se à Verdade do Sofrimento [a 1ª das 4 Sublimes (ou Nobres) Verdades do Budismo].
(2)- Tathagata é o termo que Buda habitualmente usava para se referir a si próprio. De entre os diversos sentidos deste termo, os Comentários destacam os seguintes: (a) tatha-gato, "aquele que prosseguiu deste modo", i.e., como os Budas do passado prosseguiram; (b) tatham agata, "aquele que chegou à verdade"; (c) tatha gata, aquele que entendeu deste modo (o mundo); esta explicação é válida, de acordo com os Comentários, no contexto deste Discurso. 
(3)- bhavita, tornado realidade, cultivado.
(4)- `grupos´, i.e., os 5 Grupos (ou Agregados) do Apego [a saber, Matéria (i.e., corpo), Sensação, Perceção, Carma-formações e Consciência].
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2014/fevereiro 17-23/sem. 8
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- Os 4 Corretos Esforços (IV, 13)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Há quatro esforços corretos, monges(1). Quais quatro?
 Aqui, o monge exerce a vontade de prevenir o surgimento do mal (os estados negativos ainda não surgidos); de abandonar o mal (os estados negativos já surgidos em si); de suscitar estados positivos ainda não surgidos; e de manter os estados positivos já presentes em si, bem como de não permitir que eles desvaneçam. Ele faz um esforço (para isso), estimula a sua energia, aplica a mente e empenha-se."

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(1)- Estes quatro surgem com frequência nos textos como a típica explicação do sexto fator do Caminho do Meio (ou Nobre Óctuplo Caminho), i.e., "Correto Esforço". Estes quatro esforços são também chamados de Esforço de Evitar, de Vencer, de Progredir e de Manter, respetivamente.
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2014/fevereiro 10-16/sem. 7
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Treino da Determinação e da Visão Interna (IV, 12)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Deveis viver dedicados à virtude, monges, dedicados à disciplina da Ordem e refreados por essa disciplina! Que a vossa conduta e comportamento sejam perfeitos! Enxergando o perigo implícito mesmo na menor das transgressões, deveis treinar-vos nas regras que aceitastes! Mas, se um monge viver dessa forma, que mais deve ele fazer?

Se um monge, enquanto está a andar, de pé, sentado ou deitado, estiver livre de cobiça e aversão, de torpor e indolência, de agitação e preocupação, e tiver afastado a dúvida cética (1), então a sua vontade tornou-se forte e inabalável; a sua atenção está vígil e límpida; o seu corpo está calmo e sereno; a sua mente está concentrada e centrada.
Um monge que, desse modo, mostre vez após vez empenho diligente, é conhecido como enérgico e determinado.

         Controlado a andar, em pé, sentado ou deitado,
         Controlado ao dobrar ou esticar as pernas,
         Cuidadoso observador do mundo à sua volta:
         Ele sabe como os Grupos* surgem e cessam.

         Esse que assim vive com mente entusiástica
         E conduta calma, livre da agitação mental,
         Que se treina no aquietar da mente,
         Com constância e perseverança,
         Como "Sempre determinado" é esse monge conhecido."

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(1)- Isto refere-se aos 5 Entraves (ou `Barreiras´).
*NT- Os 5 Grupos (ou `Agregados´) da Existência ou 5 Grupos do Apego. Para desenvolvimento deste assunto, ver "O Ensinamento de Buda", de Walpola Rahula, Editorial Estampa, pág. 58.
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2014/fevereiro 03-09/sem. 6
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- O Treino para a Iluminação (IV, 11)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Se, estando desperto, enquanto caminha, está de pé, sentado ou deitado, um pensamento de sensualidade, aversão ou agressividade surge num monge, e ele o tolera, não o rejeita, afasta ou elimina, não lhe dá um fim, esse monge que, desse modo e vez após vez, está sem empenho dedicado e sem vergonha moral, é chamado indolente e falho de energia.

Se, estando desperto, enquanto caminha, está de pé, sentado ou deitado, um pensamento de sensualidade, aversão ou agressividade surge num monge, e ele não o tolera, antes o rejeita, afasta ou elimina, lhe dá um fim, esse monge que, desse modo e vez após vez, mostra empenho dedicado e vergonha moral, é chamado enérgico e determinado.

         Enquanto caminha, está de pé, sentado ou deitado
         Quem acarinha pensamentos negativos ou mundanos,
         Fascinado por eles, seque o caminho para baixo;
         Nunca poderá conquistar a Suprema Iluminação.

         Mas quem vence esses pensamentos negativos,
         Enquanto caminha, está de pé, sentado ou deitado,
         Encontra deleite ao aquietar desse modo a mente;
         E, certamente, irá conquistar a Suprema Iluminação."
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2014/janeiro 27-fevereiro 02/sem. 5
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Quatros -- A corrente (IV, 5)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, pode encontrar-se no mundo estes quatro tipos de pessoa. Quais são eles?
O que segue ao sabor da corrente(1); o que vai contra a corrente; o que pisa terreno firme; e o que atravessou para o lado contrário, foi para a outra margem e pisa terra seca(2): o santo(3).

Qual é a natureza da pessoa que segue ao sabor da corrente? É alguém que se rende ao prazer sensorial e comete ações erradas(4).

E qual é a natureza da pessoa que vai contra a corrente? É alguém que não se rende aos prazeres sensoriais e não comete ações erradas. Vive a vida pura e casta (mesmo que) com penoso (esforço), com dificuldade, em suspiros ou em lágrimas(5).

E qual é a natureza da pessoa que pisa terreno firme? É alguém que após destruir os primeiros cinco grilhões(6) renasce espontaneamente (num mundo celestial)(7) e de lá alcança Nirvana, sem retornar desse mundo (para a esfera sensorial)(8).

E qual é a natureza da pessoa que atravessou para o lado contrário, foi para a outra margem e pisa terra seca: o santo? É alguém que, após destruir todos os grilhões, experiencia por si próprio nesta mesma vida, a emancipação profunda livre dos grilhões, a libertação pela sabedoria e, tendo-a compreendido completamente, nela permanece.

Estes quatro tipos de pessoa habitam este mundo." 

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(1)- A corrente significa o mundo (Samsara) e a mundanidade.
(2)- I.e., pisa o terreno firme de Nirvana.
(3)- literalmente: Brâmane, no sentido de alguém excelso em pureza e santidade, i.e., um Arahant.
(4)- Atua contra os Cinco Preceitos.
(5)- De acordo com os Comentários, isto refere-se ao"Entrado-no Fluxo" e ao "Um-Retorno" (particularmente àqueles cujo caminho de progresso é difícil e à pessoa virtuosa que é ainda mundana, não liberta (puthujjana
(6)- Os cinco primeiros (mais baixos) grilhões são: crença na personalidade, dúvida cética, apego a rituais e cerimoniais, desejo sensorial e aversão.
(7)- O processo de renascimento num mundo celestial não é sexual.
(8)- Isto refere-se ao "Sem-Retorno" (anagami). Ele tem firmeza de caráter por ter fé inabalável e outras qualidades estáveis; e, por a sua mente não ser já perturbável pelo prazer sensorial e pela aversão, ele não mais é suscetível de retornar a um plano mais baixo."
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2014/janeiro 20-26/sem. 4
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- A irrevogabilidade das 3 Características Universais (III, 134)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Apareçam ou não Tathagatas* no mundo, continua a ser uma realidade, uma firme e necessária condição da existência, o facto de todas as formações** serem impermanentes... de todas as formações serem matéria de sofrimento... de todas as coisas*** serem desprovidas de substância permanente ou alma****.

Um Tathagata enxerga completamente esta realidade e penetra-a. Tendo-a completamente enxergado e penetrado, anuncia-a, ensina-a, dá-a a conhecer, apresenta-a, divulga-a, analisa-a e explica-a: todas as formações são impermanentes, todas as formações são matéria de sofrimento, todas as coisas são desprovidas de substância permanente."

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*NT- Tathagata é a designação que Buda usava para se referir a um Buda.
**NT- Formações ou Carma-formações (Sankharas) é um termo que se refere ao ato de `formar´uma noção/entendimento ou a noção/entendimento anteriormente adquirida(o) ou a ambas as situações, sendo a sua abrangência a do inteiro mundo condicionado, ie, tudo o que é manifesto, o universo.
***NT- Aqui Buda usa a palavra `coisas´ em vez de `formações´ para incluir também nesta característica (a ausência de substância permanente ou alma) o não-condicionado, ie, Nirvana.
****NT- I.e., nada existe que se mantenha exatamente igual por 2 instantes consecutivos.
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2014/janeiro 13-19/sem. 3
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- As 3 Raízes da Ação (III, 68)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Monges, se ascetas mendicantes com pontos de vista diferentes vos perguntarem: `Amigos, há estas três qualidades: desejo ardente, aversão e ilusão. Então, amigos, como se distinguem estas três qualidades, qual é o seu significado e a diferença entre elas? Se forem assim questionados, como o explicariam a esses ascetas mendicantes de pontos de vista diferentes?"

-- "Para nós, Mestre, os ensinamentos têm a sua raiz no Bem-Aventurado. Nós temos o Bem-Aventurado como guia e refúgio. Seria bom, Mestre, se o próprio Bem-Aventurado pudesse clarificar o significado. Tendo-o ouvido do Bem-Aventurado, os monges tê-lo-ão em mente."
-- "Ouçam então com atenção, monges, eu vou dizer-vos". "Sim Mestre, replicaram os monges".

-- "Se esses  ascetas mendicantes com pontos de vista diferentes vos questionarem (sobre a distinção entre essas três qualidades, seu significado e diferença), devem responder-lhes assim:
-- O desejo ardente é menos reprovável mas difícil de remover. A aversão é mais reprovável mas mais fácil de remover. A ilusão é muito reprovável e difícil de remover.

E, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o surgimento de desejo ardente não antes surgido, e para o incremento e crescimento do desejo ardente já anteriormente surgido?
Um "objeto apetecível", deve ser a resposta. Naquele que presta atenção incorreta*, em relação a um objeto apetecível, o desejo ardente não antes surgido irá surgir, e o desejo ardente já anteriormente surgido irá incrementar-se e crescer.

E, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o surgimento da aversão não antes surgida, e para o incremento e crescimento da aversão já anteriormente surgida?
Um "objeto repulsivo", deve ser a resposta. Naquele que presta atenção incorreta, em relação a um objeto repulsivo, a aversão não antes surgida irá surgir, e o desejo ardente já anteriormente surgido irá incrementar-se e crescer.

E, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o surgimento da ilusão** não antes surgida, e para o incremento e crescimento da ilusão já anteriormente surgida?
"Atenção incorreta", deve ser a resposta. Naquele que presta atenção incorreta, a ilusão não antes surgida irá surgir, e a ilusão já anteriormente surgida irá incrementar-se e crescer.

Agora, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o não-surgimento de desejo ardente não antes surgido, e para o seu desvanecimento se já anteriormente surgido?
Um "objeto (fisicamente) defeituoso", deve ser a resposta. Naquele que aplica a correta atenção, em relação a um objeto (fisicamente) defeituoso, o desejo ardente não antes surgido não irá surgir, e o desejo ardente já anteriormente surgido irá desvanecer.

E, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o não-surgimento de aversão não antes surgida, e para o seu desvanecimento se já anteriormente surgida?
"A libertação do coração pelo Amor Universal", deve ser a resposta. Naquele que aplica a correta atenção, à libertação do coração pelo Amor Universal, a aversão não antes surgida não irá surgir, e a aversão já anteriormente surgida irá desvanecer.

E, amigos, qual é a causa, qual é a razão para o não-surgimento da ilusão não antes surgida, e para o seu desvanecimento se já anteriormente surgida?
"Correta atenção", deve ser a resposta. Naquele que aplica a correta atenção, a ilusão não antes surgida não irá surgir, e a ilusão já anteriormente surgida irá desvanecer."

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*NT- Por oposição à "correta atenção" que é a atenção vigilante, ie, a atenção exercida sem qualquer envolvimento mental/emocional por parte do observador, i.e., exercida com um máximo de objetividade, com total desprendimento ainda que com plena lucidez, tal como o cientista observa com rigor e desprendimento o desenrolar da experiência que tem em curso ou tal como o sentinela, na sua guarita, enxerga com lucidez a sua área de jurisdição, independentemente da natureza do que surge ou da eventualidade de nada surgir. Este tipo de atenção é aprendido e praticado na meditação budista "Vipassana".
**NT- As noções de ilusão e ignorância são semelhantes e denotam uma perceção algo turva, não completamente clara ou lúcida. Num quadro emotivo, Buda usa preferencialmente a palavra ilusão, e num quadro cognitivo usa a palavra ignorância. 
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2014/janeiro 06-12/sem. 2
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Gotamaka (III, 134)
Tradução para português de Nuno Aragão

"Certa vez, o Bem-Aventurado estava a residir no Santuário Gotamaka, perto de Vesali. Aí, dirigiu-se aos monges, assim:
-- "Monges, depois de o ter completamente entendido, eu ensino o Dhamma*; não sem o seu completo entendimento. De forma consistente, eu ensino o Dhamma; não sem consistência. De forma convincente(1), eu ensino o Dhamma; não de forma não convincente. Por isso, monges, o meu conselho deve ser seguido e as minhas instruções adotadas. Monges, isto é suficiente para alcançarem a satisfação, a alegria, o contentamento. 
Completamente iluminado é o bem-Aventurado; bem proclamado é o Dhamma do Bem-Aventurado; bem orientada é a Ordem**."
Assim falou o Bem-Aventurado. Com regozijo, aqueles monges(2) louvaram o discurso.
Durante este discurso, o imenso universo estremeceu. 

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(1)- No sentido de superar a oposição, vencer o antagonismo.
(2)- De acordo com os Comentários, estes monges eram aqueles a quem, numa ocasião anterior, o primeiro discurso do Majjhima Nikaya, o Mula-pariyaya Sutta, foi dirigido. Nessa altura, estes monges, que haviam sido Brâmanes antes da sua ordenação, ao não poderem compreender a profundidade do texto, não o aprovaram. Este é o único discurso de Buda em que há registo de ter existido uma reação negativa por parte dos monges. É possível que essa reação se deva ao facto de algumas passagens desse discurso (Majjh. 1) serem (talvez de forma intencional) muito semelhantes à fraseologia característica do Brhadaranyaka Upanisad (III, 7.3;IV, 4,5), e de as conclusões de Buda serem as opostas.
*NT- I.e., o Ensinamento.
**NT- Ordem dos monges, Sangha.
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2013/dezembro 30- 2014/janeiro 05/sem. 1
"Discourses of the Buddha"
Anguttara Nikaya -- Anthology  1
Edição de Buddhist Publication Society
Tradução do Pali de Nyanaponika Thera
- Livro dos Três -- Raridades (III, 112)
Tradução para português de Nuno Aragão

"É raro no mundo, monges, o surgimento de três tipos de pessoas. Quais são esses três?
-- O surgimento de um Tathagata, um Arahant completamente iluminado, é raro no mundo.
-- Alguém capaz de expor o Ensinamento e a Disciplina ensinados pelo Tathagata, é raro no mundo.
-- Alguém grato e agradecido é raro no mundo." 
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